30 setembro 2011

Primeiras horas na India

Minhas primeiras horas na India foram... a caminho, ou no caminho. Alias, as ultimas horas antes de chegar a India tambem. Meu Deus do ceu, faz 2 dias que ou estive no trem, no aviao, no carro na estrada ou em aeroportos. Meu voo saia de Frankfurt porque de Zurique alem de ser mil vezes mais caro, nao tinha voo direto para Bangalore. Ou eu tinha que parar em Mumbai ou em Delhi e ia ser muito complicado. Meu chefe sugeriu ir de Frankfurt direto e pegar um trem de Berna para o aeroporto de la que eram "so" 4 horas. Eh, nao eh muito mesmo, mas pra quem ainda ia enfrentar quase 9 horas de voo... Tudo bem, tudo bem, eu ja sabia que nao ia ser facil. Teria que passar de qualquer forma a quinta feira inteira viajando.

Tirei a sexta feira livre porque emendando com o fim de semana eu aproveitaria para finalmente conhecer o Taj Mahal. Soh que o Taj Mahal fica no norte. Bangalore eh extremo sul.

Tentei de tudo quanto foi jeito combinar a passagem Frankfurt-Bangalore com Delhi no meio, mas nenhuma forma deu certo. Ou ficava caro demais, ou o tempo de espera entre um voo e outro era impraticavel. Eu teria (e tive) que fazer Frankfurt-Bangalore e fazer por minha conta e risco Bangalore-Delhi-Bangalore no fim de semana prolongado, meu primeiro fim de semana e meus primeirissimos dias na India.

Mas voce ja viu o tamanho da India? Esse pais eh gigantesco e tudo aqui eh longe. Cheguei em Bangalore exausta ontem, passei pela imigracao (by the way, fiquei sabendo la que as vacinas sao OBRIGATORIAS para quem tem passaporte brasileiro! Ainda bem que eu tomei. Aos 45 do segundo tempo, mas tomei, senao imagina a confusao que ia ser...); e o motorista organizado la pelo meu trabalho estava la com uma placa me esperando na saida do aeroporto. Fui no carro eu, ele e um guarda para garantir que everything was gonna be alright.

Do aeroporto pro hotel: 1 hora de carro. Isso porque ja era 1 hora da manha e nao tinha transito. Hoje de manha levei quase 2 horas.

Cheguei no hotel soh o caco desejando uma cama. O hotel eh bem bacaninha, mas eu ainda to me acostumando a todo mundo me olhar como se eu fosse uma ET e colocam ma'am ao final de cada frase.

Em duas noites, dormi sete horas. Acordei hoje desnorteada sem saber onde estava, mas cinco segundos depois, me situei. Tomei banho, despertei, tomei cha no cafe da manha e as 8:15 meu motorista estava la de novo pra me deixar de novo no aeroporto.

O caminho para o aeroporto foi um tour por si so. Quanta coisa! Que barulheira! Os carros aqui se comunicam atraves das buzinas. Nao tem faixas, nem calcadas. Ate tem alias, mas as faixas sao apagadas e as calcadas meio destruidas, entao o povo dirige costurando os outros e os pedestres andam no meio da rua mesmo. Os carros tem a direcao do lado direito, mais uma heranca da colonizacao inglesa.

Eu podia ate ter tirado uns cochilos no caminho, mas fiquei prestando atencao a rua. As mulheres andam de sari, e nao eh nenhuma festa. Um homem chegou no nosso carro quando estava parado no sinal perguntando se podia pegar uma carona. Eh muita gente na rua... muita! Por todos os lados.

Meu voo para Delhi estava atrasado 1h20min. Fiz meu check in e o cara me pos na poltrona 3F logo no comeco do aviao "porque eu sou estrangeira". Tinha uns cinco soh que nao eram indianos nesse voo. Voei Kingfisher Airlines, uma companhia de Bangalore. Muito boa, gostei. As poltronas ate bem mais espacosas que as da Lufthansa que me levou ate Bangalore.

Tomei 2 red bulls no aeroporto mas nao foram suficientes. Nao conseguia me manter acordada. So foi eu sentar na minha 3F que meus olhos ja fechavam... mesmo com a indianazinha atras de mim falando alto e empurrando minha cadeira de vez em quando.

Mas logo acordei com o cheiro forte de curry e me arrisquei a comer nao sei o que nao sei o que la com chicken curry. Tava com fome... a salada e o bolo nao comi, mas a refeicao tava bem saborosa.. meu Deus, que comida mais temperada e picante! Imagino agora que a indiana que passou 3 semanas la na Suica deve ter achado tudo sem gosto. Olha, mas nao sei se vou aguentar comer isso todo dia, vamos ver.

Tirei mais uns cochilos e logo aterrisamos. Cheguei em Delhi e tinha outro motorista com o carro me aguardando. Destino: Agra. Sao em media so 200 km mas levei quase 5 horas pra chegar aqui. 2 dias inteiros viajando, tenho certeza que as pessoas que olham pra mim tem pena pela minha cara de pobre coitada de tao cansada que aparento.

E essa noite nao vai ser diferente nao. O Taj Mahal abre as 6h e as 7 o senhor motorista vai estar me esperando. So que ja sao 9:20, e eu to aqui dando sinal de vida.

A viagem Delhi-Agra foi outra aventura. O motorista nao fala Ingles direito. Perguntei quanto tempo ele eh motorista da minha empresa e ele disse "1 hora" ...ai ai. Fiquei calada mesmo o resto da viagem. Dormir era praticamente impossivel com o caos acontecendo la fora. Buzina, cachorro, vaca, aqueles carros de 3 rodas (como chama mesmo?) em tempo de ser derrubado, caminhao carregando tudo quanto eh tipo de coisa, trator. A estrada era tipo uma selva. Meu motorista tambem nao parava de buzinar. Fiquei ponderando se seria rude se eu pedisse pra ele nao buzinar tanto, e quando eu resolvi pedir, ele nao entendeu. ...ou sera que nao entendeu de proposito?!

Depois de 3 horas de carro, comecou a escurecer, e eu nao aguentei, fechei os olhos. Mas acordei logo logo com uma freada e uma buzinada, claro. Quando vi a placa "Welcome to Agra" fiquei rindo sozinha... finalmente!!!

Meu hotel eh super cool! Vou tentar dormir o melhor que puder e amanha realizar um sonho de conhecer mais uma maravilha do mundo.

28 setembro 2011

Chegou a hora... India!

É, chegou a hora. Tava cheia de coisa pra escrever ainda antes da viagem da India, mas os dias e as horas insistem em não ser suficientes. Já já estou embarcando. Nem posso dizer que aconteceu tudo muito rápido, porque não é verdade. Na verdade, essa viagem da India a trabalho sempre foi uma possibilidade desde que comecei a trabalhar remotamente com o time de 2 pessoas do escritório de Bangalore há 6 meses atrás, e depois que contratei mais 2, pronto, grande parte dos meus dias era dedicado a interagir com eles. Passar atividades, coordenar 4 projetos diferentes e 5 enquanto minha colega estava de férias por 3 semanas, e repassando o que podia ser feito da India pra eles e gerenciando daqui. Olha, tinha dias que eu ficava louca. Dava meio dia e eu não tinha feito nada de concreto, só resolvendo pepino, falando no telefone resolvendo broncas. Era o servidor que tava down, era o acesso ao ambiente de teste que estava bloqueado, era um que queria feedback, e outro avisando que ia tirar a sexta-feira de folga. Muita, muita coisa mesmo. Sem falar no trabalho propriamente dito de pensar, escrever os testes, bolar e encaixar tudo direitinho e fazer as coisas funcionarem. Talk about strategies! Tiro o chapeu pra quem coordena times de trabalho com muita gente, porque olha, eu com esses 4 indianos às vezes me sinto totalmente consumida. Eu gosto, mas é trabalho pra danar sincronizar tudo e ainda manter tudo bonitinho pro pessoal aqui da Suiça. Além de fazer minhas tarefas que obviamente não se resumem a "apenas" organizar e gerenciar diariamente as atividades desses 4.

Trouxe a indiana pra cá pra Suiça por 3 semanas em Agosto, era a primeira vez que ela saía da India. Me dediquei a fundo para que ela tivesse uma boa primeira experiência longe do país dela, mas não apenas, tinha uma tuia de coisas no trabalho para accomplish com essa visita dela. Coisas pra ensinar, coisas pra repassar, novo projeto começando, reuniões com o cliente, e ela era minha responsabilidade. Eu respondo pelo trabalho dela e dos outros 3 indianos lá. Profissionalmente, essa viagem dela era muitíssimo importante. Pra mim e pra ela. Tínhamos que passar uma boa imagem pro cliente e eu era relativamente nova no cargo, substituindo o cara que saiu, eu tinha muito serviço pra mostrar também, além de tentar construir um bom relacionamento com ela e meu time.

Graças a Deus a vinda dela foi um sucesso e o trabalho continuou muito bem depois que ela voltou pra India. Agora é a minha vez de ir lá passar outras coisas pro time inteiro e ver de perto o trabalho deles. Serão 2 semanas de trabalho. Na primeira semana estarei "só". Na segunda, colegas de trabalho se juntarão a mim para confirmar de perto que esse trabalho tão comentado está de fato sendo bem feito. É uma época de provações, e eu preciso fazer bem feito. Talk about nervous!

Porque não é logo ali que tenho que fazer bem feito, é na INDIA!!! Quando meu chefe foi levando a sério essa ideia de ir lá fazer tudo isso, fui começando a cair na real da possível possibilidade! Agora que estou aqui com mala pronta, visto, vacinas, rupees indianos e cheia de recomendações é que realmente acredito que tá acontecendo.
Confesso que a burocracia pra tirar visto (que não é pouca), encomendar guias e as fotos que vi da pobreza da India não foram o que me assustaram. Eu REALMENTE comecei a ficar em estado de alerta que o negócio é sério quando eu estava no consultório médico esperando pra tomar vacina pra 5 doenças diferentes e comprando remédio pra malária, diarréia e febre tifóide sexta-feira passadas às 7:30 da noite quando eu deveria estar no happy hour. Sim, porque febre amarela eu já tinha viu, senão ia precisar também. O resto tava tudo vencida.
Bom precisar não "precisa". Não é obrigado, mas é altamente recomendado. E a enfermeira pedindo meu cartão de vacina atualizado?!?! Hahahahaha!!! Minha senhora, tirando a vacina de febre amarela que tomei pra ir pro Egito em 2006, a última vez que tinha tomado uma vacina foi em 1998 pra ir fazer intercâmbio nos EUA! Faço a menor ideia de onde está meu cartão de vacina!!! Além do mais, estaria em Português, então.... vamos fazer um novo, que tal?

Ela olhou pra mim com uma cara de como se eu fosse a pessoa mais irresponsável do mundo, afinal como é possível a pessoa não dar conta do cartão de vacina ne? Se ela soubesse a quantidade de outras coisas mais importantes com as quais eu tive que me preocupar nos últimos anos ela me dava um desconto. Oh well.

Mas resolvi. Atrasada, mas resolvi. Era pra ter cuidado disso 2 a 3 semanas antes da viagem e eu estava fazendo isso sexta-feira da semana passada mas tudo bem. Tomei a primeira dose da vacina de Hepatite A e B, e tomei também vacina pra Polio, Difteria e Tétano. E comecei a tomar no mesmo dia o remédio pra Febre Tifoide que são 3 capsulas, 1 a cada 2 dias e tem que tomar gelado. Foi um coquetel só. Existia um risco, mas graças a meu anjo da guarda que está sempre de serviço, eu só tive um pouco de febre na noite que tomei as vacinas e depois estava já melhorando. O braço da vacina de tétano fica meio pesado, é meio chatinho. Tive que abdicar de uns programas legais que queria fazer no findi, mas ne, fazer o que.

Verdade seja dita, desde que meu chefe confirmou a viagem e minha passagem foi comprada há 1 mês, eu já passei vários perrengues na organização dessa viagem.. como perceber que a passagem da volta estava marcada pro dia errado e ser um inferno pra trocar, ou quando fui pedir o visto e o cara disse que em 1 semana ficava pronto e eu tinha que deixar meu passaporte no consulado às vésperas da viagem da Sérvia e da Bósnia! Um trilhão de aperreios, mas o que eu me preocupei mesmo foi em programar como ocupar as horas que terei livres na India!

Li um livro inteiro sobre uma história real de um marajá que se apaixona por uma dançarina espanhola e ela vai morar na India, e relata todo o choque cultural que ela viveu. Mesmo a história tendo se passado no século passado, Paixão Índia me apresentou um contexto muito razoável da India - costumes, tradições, até coisas que duram até hoje. Convenhamos, a India é super tradicional e os costumes não evoluíram tanto assim do século passado pra cá. E eu queria ir o mínimo preparada possível. Tudo de informação que eu conseguisse absorver até lá pra mim era lucro.

Conversei com muitas pessoas e também ouvi de tudo. De gente que já foi e me deu ótimas dicas, como de gente que nunca foi e deu pitacos horrorosos. Mas cá pra nós, será o 30° país que eu piso e eu não sou viajante de primeira viagem (hahaha!). Mas a India é a India, it is something else!! Ok, admito. Minha primeira vez na Ásia. Medo? Não. Apreensiva? Sim. Pelo que sei que vou encontrar e talvez não me agrade ou me assuste. Espero que toda essa tensão acabe quando eu ver com meus próprios olhos o Taj Mahal. Sim, claro. Foi minha primeira preocupação: como eu vou fazer pra conhecer o Taj? Afinal, o escritório onde vou trabalhar é no sul da India e o Taj fica no norte. Já tá tudo organizado! Agora não dá tempo de contar, mas eu nem preciso prometer que vou tentar contar tudo depois ne.

Espero que eu consiga fazer um bom trabalho e espero também que a conexão de lá funcione direitinho, e assim poder dar notícias antes de por os pés de novo na Suiça. Consegui encontrar um pacote de dados viável pra usar no celular quando estiver por lá. É a área mais cara de todo o planeta para roaming pelas operadoras aqui da Suiça, mas com esse pacote günstiger, espero continuar online! Portanto, TwitterFoursquare e Facebook estão incumbidos de dar notícias do meu paradeiro. Já o blog... não garanto.

Deus me proteja.
Namastê!

26 setembro 2011

Sarajevo - Túnel da guerra

Andar por Sarajevo é paradoxal. Ao mesmo tempo que é tranquilo, relaxante e agradável, é lembrar da guerra que a Bósnia viveu na década de 90, é olhar prédios destruídos, marcas de tiros nas paredes e praças pedindo reformas. Se voce não é ligado em história e fatos, vai andar por Sarajevo na maior paz do mundo achando ótimo as ruazinhas do centro histórico e as lojinhas que tem lá. Mas se voce está ciente de tudo que esse lugar viveu, vai olhar duas vezes, e vai tentar enxergar com outros olhos, vai tentar voltar no tempo e imaginar os horrores que essa terra viveu.
A Bósnia ainda não é o lugar mais popular e tranquilo do mundo, mas a guerra que aconteceu ali já acabou, e por ser tão recente atrai gente interessada em ver de perto e tentar entender o que se passou ali. Se voce é um desses, o Túnel da guerra vai lhe chamar a atenção.
Quando Sarajevo foi cercada pelas forças sérvias que não aceitavam a independência da Bósnia, era guerra pra valer. O exército iugoslavo não era de brincadeira e sitiou a cidade por quase 4 anos inteiros, tornando a capital da Bósnia um verdadeiro campo de batalha. Eram máquinas pesadas, poderosas milícias, armamentos carregados que levaram a cidade quase que totalmente ao pó. Bombas eram explodidas na rua, crianças morreram, famílias se separaram, perderam contato, quase 11 mil pessoas perderam a vida e outros milhares se feriram. Era guerra. Os mandantes da guerra foram posteriormente condenados por crimes contra a humanidade. Não tinham pena nem dó, era o verdadeiro terror. A cidade ficava totalmente destruída.
O centro de Sarajevo era totalmente cercado pelo exército iugoslavo. A população tentava como podia sobreviver e sair do centro da confusão. Para tal, foi construído clandestinamente até as proximidades do aeroporto de Sarajevo um túnel, o Túnel da guerra.

O Túnel tinha 1,5m de altura e quase 1km de extensão. Levou 6 meses para ser terminado. Foi construído pelos bósneos como passagem secreta do centro de Sarajevo até o aeroporto, onde de lá pudessem partir para áreas neutras, longe dos olhos dos sérvios. Por este túnel, comida e ajuda humanitária chegava até a capital Sarajevo, ajudando o povo que lá permanecia a sobreviver. Estima-se que 1 milhão de pessoas atravessaram esse túnel na época da guerra.
Foi por anos alvo dos sérvios. Hoje o Museu do Túnel existe nas proximidades do aeroporto, onde ele terminava. O Museu é mantido pelos donos da propriedade e uma parte do túnel ainda é mantida, e visitando o museu, é possível andar um pouco pelo túnel.
O pouco que existe é suficiente para passar a terrível impressão de uma jornada subterrânea perigosa e estreita. É agoniante, é escuro, é pequeno, tem bichos, tem insetos, tem água pingando, é triste. Mais triste ainda é andar ali e imaginar que milhares de pessoas tiveram que passar por ali seja para fugir, seja para transportar materiais de abastecimento, comida, etc. com o objetivo de sobreviver a uma guerra.
Na foto eu to sorrindo mas a sensação é estranha... E aí foi-se mais uma impressão da Bósnia e sua época de guerra. O Museu do Túnel é uma das atrações mais populares de Sarajevo. Não dá pra ir andando do centro até lá, é preciso pegar um ônibus, ou um tour, mas é um must a se fazer quando se visita a capital bósnea. Recomendado.

25 setembro 2011

Sarajevo

A capital da Bósnia hoje parece uma cidade que parou no tempo. Embora os guias de turismo insistam em dizer que é uma das cidades que mais cresce do leste europeu, a verdade é que desde que perdeu 11 mil cidadãos na guerra da Bósnia na década de 90, Sarajevo não conseguiu se recuperar totalmente. Hoje ela tem quase 3 milhões de pessoas. Apesar do esforço e investimentos em reconstruções, reformas e restaurações, da antiga glória de lá só se vê resquícios.
É muito prédio abandonado caindo aos pedaços, meios de transporte que não são renovados há décadas. Poucos minutos andando em Sarajevo, tem-se a clara impressão de que você voltou no tempo. Lá não tem nada de luxo, nada de chique. Sarajevo é simples. Eu fiquei hospedada no centro antigo e pra falar a verdade, eu curti mais bater perna em Sarajevo do que em Belgrado. Sei lá, Belgrado é grande demais, é confuso, muito trânsito. Já Sarajevo apesar de mais acabadinha, é mais calma, é menor, mais tranquila, as ruas são mais estreitas. Claro, nas rodovias as ruas são largas, mas o centro, onde se faz turismo, é menor, mais concentrado, e mais aconchegante.
Talvez seja porque eu estou acostumada a morar em Berna e to acostumada a cidade com ritmo mais lento, mas eu amei o centro antigo de Sarajevo, Baščaršija. Um pequeno labirinto de ruazinhas estreitinhas, com várias lojinhas, bares, ideal pra ser explorado a pé mesmo. É o coração da cidade. Muito charmoso, simples, bater perna em Baščaršija é uma delícia. Voce anda, olha pratos de cobre, souvenirs autênticos, um conjunto de café, e daqui a pouco dá de cara com uma mesquita, anda mais um pouco, bate numa igreja. Achei maravilhoso ficar andando ali.
Falando em café, o café bósneo é muito famoso e merece um parêntese. Tradição do lugar, mesmo com a temperatura batendo 30 graus, em cada esquina, em cada bar, em cada lojinha, era gente tomando um café bósneo sem se preocupar com nada mais. Não me pergunte a diferença de como é feito, mas eu tomei e achei parecido com o café turco, só que mais grosso, mais forte, mas o gosto é bom. É sempre servido com um cubo de gelatina, e o grande lance que os bósneos se orgulham de diferenciar o café bósneo do café turco é não misturar o açúcar no café, mas comer o açúcar antes puro, e aí depois apenas beber o café.
Eu me juntei a um pequeno grupo num tour no sábado de manhã que andaria pelo centro antigo de Sarajevo. Tinha duas inglesas e uma alemã, eu e a guia que era de lá. Foi super legal bater perna num grupo tão pequeno porque pudemos conversar melhor, conhecer mais do que a guia tinha pra dizer, que era suuuuper interessante porque era ela de lá mesmo, era jovem, viveu na pele as consequências da guerra da Bósnia e ponde contar pra gente um pouco da sua experiência. Seu pai era militar e teve que servir quando o país entrou em guerra, e ela e a mãe foram para a Alemanha, ficar lá durante o tempo da guerra pra se proteger do conflito. Ela era muito pequena, aprendeu Alemão, e quando viu o pai de novo 5 anos depois, não lembrava mais dele. Hoje depois de já ter conversado com seu pai de novo, mais madura e ciente do que o país estava vivendo naquele momento, ela entende que foi uma das piores coisas que o pai dela já viveu: ser obrigado a servir, sobreviver, voltar da guerra, encontrar a família e a filha não o reconhecer. Ela disse que quando o viu pela primeira vez depois da guerra, o pai estava muito magro, mal cuidado... Deve ter sido uma época muito difícil mesmo. Depois de mais alguns anos, todos voltaram a morar em Sarajevo, ela terminou os estudos e hoje é guia de turismo.
Sarajevo é muito rica culturalmente, muito distinta. Eu mesma nunca tinha visitado nada parecido. Muito autêntica, e apesar da pobreza, é muito tranquilo de andar. Por vezes eu meio que me perdi no centro com tanta rua pra lá e pra cá, mas nada demais, o centro não é assim tão grande e logo logo eu me achei. A maioria das atrações se concentram ali, então é tudo muito prático. Me hospedei num hotel muito bonzinho no centro, com free wifi, café da manhã e muito em conta, e era só sair do hotel e eu já estava no centro.
Sarajevo não é uma cidade de museus majestosos, fachadas imponentes, é uma cidade vibrante de estilo único e uma cultura rica.  Sarajevo é uma bonita cidade, e as pessoas de lá são bem amigáveis. Bem mais que em Belgrado, eu achei. Apesar de ser a capital da Bósnia, não carrega ostentações e vantages de cidade grande não. O Festival de Filmes que acontece por lá no final de Agosto foi uma grande vitória, resistência da época da guerra e mantém vivo o espírito de cenário cultural da cidade.
Muita coisa na cidade foi construída devido aos Jogos Olímpicos de 1984 que aconteceu ali. Uma revolução socialista, dizem os locais. As Olimpíadas de 84 em Sarajevo foram um marco, época de prosperidade, investimentos, turistas e renovações. Pena que tudo veio abaixo com a guerra de 92 a 95.
Todo mundo fala Inglês. Os restaurantes são uma atração a parte. Todos sempre cheios, os menus quase todos só com comida bósnea. Eu estava morta de fome no sábado a noite, e quando fui dar uma volta e olhar o que todos estavam comendo, só via Ćevapčići! Ćevapčići é nada mais que bolinhos carne moída com pão tipo Kebab, cebola e queijo. Todo mundo estava comendo isso! Eu fiquei curiosa e fui comer também. É bom, nada de extravagante. Mas as opções são bem mais vastas. Ninguém passa fome se tiver afim de explorar a culinária da Bósnia!
Que mais me chamou atenção de atração turística foi o túnel, construído clandestinamente na época da guerra para abastecer a cidade longe da influência dos sérvios. Hoje uma parte do túnel é um museu próximo ao aeroporto, principal atração turística de Sarajevo, que eu contarei no próximo post.

24 setembro 2011

Bósnia

Se já foi difícil arrumar informação pra ir até a Sérvia, informação disponível pra ir pra Bósnia tem menos ainda. Quando eu comecei a pensar em ir a Sérvia, fiquei olhando no mapa os países que fazem fronteira, e fiquei de olho na Bósnia. Bósnia e Herzegovina! Capital: Sarajevo. O que será que tem lá de bom? Sarajevo me parecia até mais turística que Belgrado, e seria interessante ir até lá. Então caí em outro dilema: como ir.
As informações que achei no TripAdvisor e LonelyPlanet de como ir de Belgrado a Sarajevo eram meio desencontradas, antigas e incertas. O site da empresa de trem não tinha em Inglês e parecia desatualizado. A empresa de ônibus tinha links quebrados. Então fui pesquisar como ir de avião no Ebookers. O vôo só duraria 50 minutos e o preço era em conta. Pronto, tinha encontrado a solução. Eu não imaginava que o avião seria tão pequeno, tão barulhento, tão velho e tão teco teco, mas graças a Deus deu tudo certo e eu fui de uma cidade pra outra sem maiores preocupações.
A Bósnia foi um país que sofreu muito nos últimos 20 anos. O país já foi governado por sérvios, croatas, austro-húngaros, otomanos. Durante o império dos Habsburgos, a tentativa de unir as tantas etnias e religiões que viviam por ali gerou uma grande resistência do povo local que queria independência, e essa grande confusão de sentimentos levou o radical bósneo-sérvio Gavrilo Princip assassinar o herdeiro do império Franz Ferdinand e sua esposa em 1914 em Sarajevo, sendo a gota d'água para explodir a 1a Guerra Mundial. A Bósnia se juntou ao reinado dos sérvios, croatas e eslovenos. Na 2a Guerra Mundial, os nazistas usaram a Bósnia como marionete assim como a Croácia, deixando o país em frangalhos. Depois da Guerra, o país foi reintegrado a Iugoslávia, que foi relativamente a partir daí um período calmo, comparado a antes.
Como a Iugoslávia aos poucos foi se desintegrando, a Bósnia quis independência em 1990, e apesar do reconhecimento internacional de sua independência, o país, e principalmente a capital Sarajevo se tornou palco de uma grande guerra de etnias. Foi um período de fortes e violentas marcas, e isso há pouco mais de 2 décadas. Com certeza voce aí se lembra de ter ouvido notícias ou visto imagens da guerra na Bósnia na década de 90.  Eu só fui entender mesmo o que aconteceu agora. Tudo começou porque o maior grupo étnico republicano, os bósneos-muçulmanos, foram desafiados pelos sérvios e croatas que não queriam a Bósnia independente. A verdade é que a Bósnia é "dividida" em 3 religiões e 3 grandes grupos: muçulmanos, sérvios ortodoxos e sérvios croatas. Só que das 3, os muçulmanos são a maioria. E os muçulmanos deixando de fazer parte da Iugoslávia, o antigo regime perderia a aliança com a grande massa da população bósnea, e isso gerava conflitos de interesses no regime iugoslavo. A Bósnia não estremeceu e aguentou a violência, saiu da guerra independente, e foi o estopim pro fim de vez da Iugoslávia. Depois da saída da Bósnia, só restava a Sérvia e Montenegro. Todos os outros países já tinham se tornado independentes, mas nenhum gerou tanto auê como a Bósnia, porque nenhum tinha tanto muçulmano na sua população.
A Bósnia tem 45% da população como muçulmana. O resto é dividido em cristãos, ortodoxos, sérvios, croatas. Lá tem minarete, tem mesquita, mas a religião não é a principal característica do país e não é dominante por todos os lados. Não é como no Egito, nem na Turquia, nem na Jordânia, que a maioria devastadora é islâmica e todas as mulheres andam de burca, e as regras são mais rígidas. Talvez seja pelo passado doloroso recente que fez a Bósnia pegar mais leve, mas lá é mais relax. Andei de vestido e short mostrando a perna, os braços e não me senti ameaçada em nenhum lugar. Aliás, foram poucas as mulheres que vi de burca. A bósnea que conheci tava lá toda ocidental, e o povo na rua anda normalmente. Então em relação a isso pelo menos, foi uma preocupação a menos.
A guerra pela independência destruiu muita coisa na Bósnia. Foram 4 anos de muita violência, mais de 10 mil pessoas morreram, e hoje existem muitas histórias remexidas, afetadas e consequentes dessa fase turbulenta na história. Muitos homens tiveram que entrar no exército bósneo e defender o país, enquanto suas famílias iam pra outro país pra sobreviver. Muitas famílias foram desfeitas, e é difícil medir o tamanho do baque, principalmente porque desde antes dessa guerra, não há um censo pra estimar a população exata do país. Já pensou?! Hoje a cooperação dos grupos étnicos ainda não é ótima, e o país ainda parece meio dilacerado pela guerra. Independência eles têm, mas também tem quase metade da população desempregada, e apesar de Sarajevo estar crescendo e despertando interesse turístico no leste europeu, o progresso é muito lento.
Ir a Bósnia hoje não é a coisa mais simples do mundo. Mas Sarajevo é um lugar muito agradável para se conhecer. Tem que se estar preparado. Não espere encontrar nenhum tipo de luxo, mas a cultura e a história são fascinantes, o que liberta interesse de explorar as belezas naturais do país. Além de Sarajevo, Mostar, Travnik, Jajce, Bihac também são cidades de interesse. Os trens lá são de baixa qualidade, mas as estradas são razoáveis. Eu voei pela Jat Airways, que é a empresa aérea sérvia mais conhecida. Mas ainda tá longe de ser também de alta qualidade. Como eu disse, o avião era minúsculo e barulhento. Fazia parte da aventura.

Afinal conhecer a Bósnia não é pra qualquer um. Tem que estar disposto e preparado a qualquer coisa de aventura. Eu adorei a Bósnia. Acho que até mais que a Sérvia. Não é preciso visto para brasileiro entrar na Bósnia, e achei tudo muito tranquilo. O dinheiro é o marco bósneo (BAM - marco bósneo conversível), e é quase o dobro do euro. 1 Euro =~ 2 Marco Bósneo. E em geral, as coisas lá são bem baratas. Fiquei num hotel bem bacaninha no centro antigo de Sarajevo e foi super em conta. Próximo post escrevo mais sobre Sarajevo.

23 setembro 2011

Belgrado - Forte Kalemegdan

A fortaleza mesmo tem 2 mil anos de existência. Mas Kalemedgan é mais que um forte. É uma área querida pelos sérvios e um lugar para relaxar e apreciar a vista. Ao final da Knez Mihailova, a rua de pedestres com lojas que falei no post passado, se voce continuar andando andando e andando como se não fosse ter mais nada, voce atravessa uma rua e vai bater no complexo.
De origem romana, hoje o forte tem um clima moderno. Talvez pela proximidade da Knez Mihailova que no final da rua, além de lojas tem muitos bares com mesas na calçada e tal. Mas é só atravessar a rua e voce está numa área bem arborizada, com uma feirinha de souvenirs, mais turistas. Foi a área mais tranquila de Belgrado que eu andei. Mas tem que estar disposto a andar, o forte não é pequeno não, mas vale a pena. São mais de 20 hectares, mas o esforço compensa. O sol tava de matar, mas a vista do encontro do rio Danúbio com o Sava é muito bela.
Pelas fotos já dá pra supor que o lugar deve ter sido de grande importância pela localização ne. E foi. Foi primeiro estabelecido pelos celtas, depois pelos governantes sérvios medievais, expandido durante o Império Otomano e depois ocupado pelos austríacos. O forte hoje é uma mistura de vários estilos. Mas mais importante que isso, o forte é um parque e uma grande área para passeio. Não só havia muito turista como sérvios também passeando e aproveitando o dia bonito que fazia, grupos de escolas tendo aulas, tinha bastante gente. Teria sido 100% se não fosse a bizarrice que passei andando lá... ora, estava eu com minha camera tirando minhas maravilhosas fotos, quando me aparece um cidadão todo mulambento, olha pra mim e me pergunta do nada se eu estou ficando em algum hostel.. eu fiquei muito surpresa ne, como assim to ficando num hostel, quem é esse sujeito?!?!!! aí eu dei uma de desentendida, mas fiquei séria. E ele lá todo querendo ser gentil dizendo que não, é porque eu trabalho num hostel e bla bla bla, e eu disse "nao, to ficando em hostel nao", e saí. Aí ele disse sorry e saiu. Ne lasca? Só acontece comigo isso?
Bom, apesar desse episódio sem pé nem cabeça, o forte é super! Passei um tempão ali andando pra lá e pra cá, sentei num banco, observei o movimento. Gostei pra caramba! Por isso resolvi fazer um post só pra ele!

Ah, a propósito, o blog tava dando uns problemas pra carregar. Eu desativei o sistema de comentários novo que tinha colocado, e agora parece que está ok. Em compensação, perdi os comments que foram feitos nesse sistema, por isso os posts recentes estão mostrando agora 0 comentários. Vou deixar esse sistema do blog mesmo que dá menos problema eu acho.