29 julho 2010

A vinda dos meus avós a Europa

Demorei, mas cheguei. Ontem não consegui sentar aqui e escrever. Cheguei do trabalho e fiquei só resolvendo coisa da viagem pra Luxemburgo com o Eric. Finalmente consegui resolver a questão "Juca" e posso viajar tranquila. Bom, mas então, a vinda da minha família. Se eu não contar como começou a novela, não fizer pelo menos um resumo do porque essa vinda dos meus avós é tão importante, não tem a mesma graça. Então, em suma, é assim... eu morava em Recife quando comecei a fazer meu mestrado em 2007. Deixei meu emprego pra virar bolsista de dedicação exclusiva e estudava feito uma louca pra passar nas disciplinas. Passadas as disciplinas, precisava focar no meu tema, na minha dissertação, no meu estudo. Para isso, muitas e muitas horas sentada na frente do PC pesquisando, reuniões de vez em quando com meu orientador e só. Muita nerdice, isso sim. Só que eu morava sozinha, eu e Juca, pagava aluguel e me dei conta que eu tava pagando aluguel, conta de água, luz, telefone, condomínio, tudo no mundo, pra ficar em casa pesquisando, quando poderia estar por exemplo em Natal onde minha família morava e ficar pesquisando de lá, e não ia fazer a menor diferença pro mestrado. Aliás, diferença ia fazer muita pra mim. Eu ia gastar menos com o monte de conta e despesa do meu apê em Recife. Mais um motivo: a minha intenção era arrumar um emprego fora do Brasil quando terminasse o mestrado, então mais cedo ou mais tarde ia ter que sair e me desfazer do meu apt de Recife de qualquer forma. Então, resolvi antecipar a saída de Recife, me desfazer dos meus móveis, minhas coisas, e ir pra Natal escrever minha dissertação de lá, passaria um ano ainda no Brasil, em Natal, então perto da minha família, depois de 6 anos e meio morando só em Recife, pra depois partir pra mais longe. Então pronto, decidi ir. Só que depois de 6 anos e meio longe da casa da mamãe, um quarto que era meu não existia mais. Os quartos estavam ocupados e eu não tinha espaço lá. Resolvi então ir pra casa dos meus avós, que moram numa casa na praia perto de Natal.

Eu sempre tive um relacionamento legal com meus avós. São pais da minha mãe e sempre estivemos próximos, mas é fato que depois que se mora só, principalmente por tanto tempo, é difícil voltar a dividir moradia com alguém. Com alguém vááários anos mais velho que você, é mais difícil ainda. Mas eram meus avós e topei a parada, afinal só era até eu terminar de escrever minha dissertação e concluir meu mestrado. Lá fui eu então com Juca de mudança morar com meus avós.

Meus avós são do interior do Rio Grande do Norte, moraram vários anos no Rio. Minha avó é muito mas muito religiosa e meu avô lê bastante e aprendeu a falar inglês e francês sozinho, e ainda arranha um alemão. Nos meus dias de sufoco de mestrado quando não conseguia escrever uma linha, era na varanda da casa deles onde eu me recompunha e as palavras do meu avô me acalmavam e eu conseguia voltar a trabalhar. Foi lá onde minha dissertação de mestrado foi produzida. Passava dias sem sair de casa, comendo a salada de frutas e tantas delícias que minha avó preparava pra mim a tarde. Dias de sexta-feira quando meu avô chegava em casa no final da tarde, tomava banho, sentava na varanda e abria uma garrafa de vinho pra comemorar mais uma semana de trabalho. Sem falar nos fins de semana quando iam meus primos e eu aproveitava umas horas do sábado pra espairecer e recarregar as energias pra continuar a luta do mestrado. Uma vez por mês tinha missa na capelinha nos fundos da casa, e minha avó preparava janta pro padre e passava o dia ajeitando as coisas pra missa. Foi lá onde eu reforcei meus valores, aprendi outros, descobri a beleza de se estar junto por tanto tempo, com suas particularidades e características com as quais aprendi tanto. Meu avô assinou a revista Paris Match por algum tempo, assiste filmes e lê livros em francês, mas nunca esteve na Europa, me dizia que o sonho dele era conhecer Paris e sentar num daqueles cafés na beira da calçada e pedir um vinho nacional, e dava gargalhadas dizendo que agora já era tarde. Minha avó é muito religiosa e um dia quando eu não aguentava mais olhar pros livros, ela me chamou pra assistir o filme Bernadette, que conta a história de Bernadette Soubirous que viu Nossa Senhora na cidade de Lourdes, no sul da França, e a água da fonte por ela cavada tem poderes milagrosos de cura até hoje. Para provar o milagre, o corpo de Bernadette está intacto até hoje no convento em Nevers, a 800km de Lourdes, não apodreceu. Me interessei, pesquisei e li sobre a história e alimentei ainda mais a minha fé católica. Foi então depois de episódios assim, quando eu buscava um emprego na Europa e fazia entrevistas loucas pelo telefone, num dia a noite na mesma varanda quando eu tinha encontrado o anúncio do emprego que estou hoje, prometi que se eu conseguisse esse meu emprego aqui, eu os levaria pra conhecer Paris e Lourdes.

Voilá...






















PARIS


















e
















LOURDES


















Tá bom pra começar, ne? Pro impacto não ser muito grande vou mostrando o tesouro que são as fotos e as histórias aos poucos...

28 julho 2010

Voltei!

São meia-noite e doze. Não sei se estou mais cansada, com sono ou sem coragem de voltar a trabalhar. Preciso de férias, andei demais, me cansei demais, e amanhã já volto a trabalhar, oh, ceus, nada é perfeito. Vida voltando a rotina agora que a família já partiu, passou tão rápido... Mas tenho um trilhão de fotos e histórias pra contar. Não sei nem por onde começar. Quero contar tanta coisa, da alegria do meu avô em chegar em Paris pela primeira vez, da minha avó em visitar o santuário de Lourdes, sem falar em Montpellier que foi uma verdadeira festa. Além, é claro, da minha querida Berna que encheu os olhos de todo mundo. Pra você ter uma ligeira impressão, vou postar logo só uma foto assim mais ou menos de amostra gratis:


















Prometo que amanhã sento aqui de novo pra começar as histórias e, lógico, passar pelos meus blogs de leitura de rotina pra saber qu'est-ce que se passe... ahh treinei muito meu francês! Tenho que correr, pois próximo fim de semana talvez vá a Luxemburgo e aí já vai ter mais coisa! Ai ai ai, vou dormir, depois eu volto! Beijos.

19 julho 2010

Aviso

Não to com tempo de sentar e contar tudo que eu quero contar agora. Amanhã é meu aniversário, família chegou, estamos correndo pra estação e pegar nosso trem rumo a Paris. Conto na volta!!

Beijos

16 julho 2010

"Blog é muita exposição"

Não acho que seja necessariamente quebrar um tabu em falar nisso, mas é a primeira vez que falo sobre isso aqui. Exposição. Resisti porque não via necessidade, mas agora sinto vontade de levantar esse tópico e justificar a exposição. Por quê se expor tanto, contar tantas coisas e tantos detalhes, colocar fotos e deixar tudo aí solto pra quem quiser ver num blog?

Bom, então vamos lá. Eu comecei a fazer este blog com o intuito de registrar o progresso do fim do meu mestrado e mudança para o exterior, que eu não sabia ainda pra onde seria. Não tinha intenção de tornar o blog popular, conhecer pessoas nem nada disso. O blog era pra mim. Quando eu era pequena, escrevia diários e lembro de achá-los depois de muito tempo quando arrumava caixas pra alguma mudança ou arrumação no armário e adorava ler e lembrar de coisas que há muito tempo não passavam pela minha cabeça. Quando eu estava nessa fase de transição de mudança pra cá, sabia que era uma das coisas mais importantes que estava acontecendo na minha vida, e não queria perder cada pensamento, cada sensação, que ia ficar esquecida por causa do tempo. Queria poder sentar, acessar o blog tempos depois e poder ler e lembrar disso depois. Pra mim, só pra mim. Pra eu lembrar. Mais ninguém.

Mas aí vira e mexe aparecia um comentário assim "oi Liana, achei seu blog quando pesquisava sobre vida no exterior e adorei o que vc contou no post tal e tal...". Aí eu ficava curiosa, ia no blog da pessoa, ou respondia ao comentário, e terminava trocando mais mensagens, conhecendo mais a pessoa e achando alguma experiência ou situação parecida com uma que vivi, e era ótimo poder conversar e saber mais daquela pessoa, saber como ela se virou quando passou dificuldade, pra onde ela viajou nas férias, porque eu tava vivendo a mesma coisa, e me sentia melhor com alguém "perto" pra dividir as conversas.

Com o tempo, apareceram vários comentários desse tipo "oooi Liana..." e eu passei a adorar ler o blog de outras pessoas e aprender com as experiências dos outros. Senti então vontade de deixar meu blog mais bonitinho, mais arrumadinho, escrevendo melhor, mais organizado, de maneira que atraísse pessoas desse tipo pra essa "comunidade" que eu começava a fazer parte fosse cada vez algo mais gostoso de manter e cultivar.

Pronto. Quando eu me toquei, meu blog recebia mais de 100 novas visitas por dia, depois que instalei o negócio de tráfego ao vivo de visitas comecei a ver de onde vinham meus acessos, das buscas no google, e passei a conhecer tanta gente interessante com tanta história boa pra contar. Nossa, a dedicação ao meu blog e ao acompanhamento de outros blogs e amizades virtuais passaram a ser parte do meu dia a dia. E aí, é claro, começam as "crises do relacionamento" e eu comecei a questionar a minha relação com meu blog segundo a tal da exposição. Comecei a pensar "e se algum ex namorado estiver lendo o que eu tô escrevendo?", e se aquela amiga que eu não falo há séculos que eu não sei mais nada da vida dela estiver lendo meu blog e sabe de tudo da minha vida? Não é justo, ne. E se tiver aí alguém pelo mundo me perseguindo? E se, e se, e se...?

Bom, se deixar, eu viro paranóica. Não gosto de alimentar as pulgas atrás da minha orelha, porque apesar de eu tentar ser forte e tudo, eu sou muito é da frágil e antes de não me deixar influenciar por algo, eu sempre analiso "e se eu me deixasse levar?", "e se eu fosse por esse caminho?". Eu gosto de correr riscos, acho que se não, não estaria nem aqui. Já comentei em outro post que não vivo na mesmice por muito tempo e gosto de emoções, intensidade, apesar de ser mais madura e muito menos impulsiva hoje que há anos atrás, é bem verdade. Mas acho que a vida é tão curta. Vi meu pai sumir desta vida assim tão de repente, em um fim de semana nossa vida virou de cabeça pra baixo e nada nunca mais foi como antes. Passei a enxergar várias coisas como nunca tinha visto antes. E então hoje eu penso que se eu ficar encucada pensando que pode vir um maníaco me perseguir se eu contar que meu hobby é isso ou aquilo, não faço mais nada. Deixo de conhecer gente que possa ter o mesmo hobby que o meu e posso deixar de aprender tanta coisa. Não quero ficar isolada e pensar que estou deixando de conhecer novos lugares e pessoas que vivem situações parecidas com as minhas, ou pessoas que eu posso ajudar com algum relato daqui, com alguma coisa que vivi, porque estou com medo de deixar aí meu depoimento solto na internet pra quem quiser ler.

Eu prefiro acreditar que vale a pena. Prefiro acreditar que vale a pena por a cara a tapa, correr o risco e deixar mesmo tudo solto aí, posts accessíveis pelo google, e assim pessoas que precisam de informações que eu possa dar as achem através do meu blog, que me contactem através do email do blog pra pedir um conselho que eu possa dar porque já vivi coisa parecida, ou que me escrevam só pra dizer que adorou o post sobre como montar um sofá cama. A internet é uma tecnologia fantástica e a gente colabora como pode pra que ela seja útil. Eu tô fazendo minha parte. Até hoje não recebi nenhum email criticando alguma coisa, mas se você quer criticar, sinta-se a vontade também. Ninguém é perfeito.

A exposição faz parte. Eu não fico mais noiada com isso. Já aceitei, já assumi os riscos e encaro as consequências. Não dá pra ter um blog e não ser fiel a ele, contar só coisa boa, ninguém é assim o tempo todo, e apesar de ser meio down ficar lendo posts que só reclamam das coisas, todo mundo passa por dificuldade e é importante saber que outras pessoas também viveram coisa parecida e aprender como elas superaram isso e aquilo. A gente tem que se ajudar. Aqui no blog, eu tento ser fiel contando não só coisa boa nem só coisa ruim, mas fiel a mim mesma contando de tudo um pouco. Quando eu for ler tudo pra trás, vou lembrar que foi assim mesmo que aconteceu. Eu adoro, é um bom exercício pra mim e vou continuar assim. Fique a vontade. Se você tá lendo aqui por curiosidade, inspiração, admiração, pelas fotos, ou qualquer outra coisa, eu espero que essa DR esteja concluída e que agora não haja mais suspeitas e desconfianças entre nós do porque eu tô aqui escrevendo sem escrúpulos.

14 julho 2010

Morar fora

Acabei de ver o texto abaixo neste blog e não posso deixar de comentar por aqui, porque assim como eu, sei que muitas e muitos expatriados vão se identifcar e compartilhar dos mesmos sentimentos ao lerem.
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MORAR FORA

Não é apenas aprender uma nova língua.
Não é apenas caminhar por ruas diferentes ou conhecer pessoas e culturas diversificadas.
Não é apenas o valor do dinheiro que muda.
Não é apenas trabalhar em algo que você nunca faria no seu país.
Não é apenas conquistar um diploma ou fazer um curso diferente.
Morar fora não é só fazer amigos novos e colecionar fotos diferentes.
Não é só ter horários malucos e ver sua rotina se transformar.
Não é só aprender a se virar, lavar, passar, cozinhar.
Não é só comer comidas diferentes, pagar suas contas e se preocupar com o aluguel.
Não é só não ter que dar satisfações e ser dona do seu nariz.
Não é só amar o novo, as mudanças e também sentir saudades de pessoas queridas e algumas coisas do seu país.

Não é apenas já saber que é alguém do Brasil ligando quando toca seu celular e aparece numero privado.
Não é só a distância.
Não são apenas as novidades.
Não é só uma nova vista ao abrir a janela.
Morar fora é se conhecer muito mais...
É amadurecer e ver um mundo de possibilidades a sua frente.
É aceitar desafios constantes.
É se sentir na Terra do Nunca
É querer voltar e não conseguir se imaginar no mesmo lugar.
Morar em outro pais é se surpreender com você mesmo.
É se descobrir e notar que na verdade, você não conhecia a fundo algo que sempre achou que conhecia muito bem: Você mesmo!

13 julho 2010

Gostinho bom

Ontem começou a trabalhar um brasileiro no meu departamento. Conversando com ele, me dei conta que ele sou eu ontem, deslumbrado e muito entusiasmado com tudo. Tanta coisa que aconteceu nesse ano e hoje já é tão normal pra mim. Coisas que nem me lembrava mais, como por exemplo ele chegou ontem a tarde muito empolgado com a rapidez e a facilidade com que tinha aberto uma conta no banco. Quando o apresentei à minha amiga portuguesa, percebi que ele não entendia quase nada que ela dizia, e me lembrei de quando cheguei que toda hora dizia "hã?" e ela tinha que repetir. Aliás, hoje já me acostumei mais com o jeito que ela fala, mas ela ainda tem que repetir muitas vezes. Depois me disse que tava deslumbrado com a cidade, com o rio tão reluzente que corta a cidade, com as pontes tão belas, com a limpeza do chão da rua, com a pontualidade dos trams, a organização e a simplicidade das coisas, com a diversidade das pessoas na rua, com o charme da arquitetura da cidade, enfim. Ele falando que andava na rua e ouvia o dialeto e não fazia a menor idéia sobre o que as pessoas estavam falando, me lembrei de mim quando cheguei, que ficava olhando, tentando ler os lábios das pessoas também e não conseguia decifrar nada. Hoje já faço idéia.

Aí fomos conversar sobre o trabalho, e fui enumerar as particularidades de se trabalhar aqui, e me lembrei como fiquei contente como ele da primeira vez que me disseram que aqui a gente não paga imposto, tem desconto em taxas, nosso job tem status de diplomata, faz parte de um plano de previdência único nessa vida, tem 7 semanas de férias por ano, enfim, fazemos parte de uma minoria que saiu do Brasil pra ter um emprego invejável aqui fora enquanto tanta gente passa necessidade em busca de algo melhor pra si, e eu que reclamo tanto dele.. Não sei aonde mais poderia estar pra ter tantas vantagens de aprender e ter a chance de praticar 2, 3 idiomas ao mesmo tempo, conhecer gente, culinária e cultura do mundo todo, viajar quatro horinhas e poder ir passar o fim de semana em outro país, ter acesso a museus, artes, concertos, música e variedades que me interessam tanto, fazer parte do dia a dia da vida de um país minúsculo mas que tem 3 dentro das 10 cidades com melhor qualidade de vida no mundo, e eu moro em uma delas.

Como progredi nesse um ano, como me inseri, como mudei. Mesmo ainda me sentindo uma estrangeira, e sabendo que isso não vai mudar da noite pro dia, nem de um ano pro outro, é possível enxergar pequenos progressos e poder vibrar com as pequenas conquistas.

Eu podia não ter conseguido me acostumar, podia ter chorado, esperniado nos dias mais frios do inverno e ter jogado tudo pro alto. Eu podia ter perdido a paciência e ter posto tudo a perder com algumas pessoas do trabalho que me tiram do sério. Podia ter aceitado outras propostas e desistido nos dias mais solitários. Tanta coisa podia ter acontecido, mas não. O bom é passar pelas dificuldades. É poder olhar pra trás e ver no próximo as experiências que você viveu e sobreviveu com sucesso. É poder dar o seu depoimento e poder ajudá-lo, explicar como funciona a máquina de comprar bilhetes que está toda em alemão, poder ver o agradecimento nos olhos dele e poder ver que você já passou desta fase.

Sei que ainda tem muita coisa por vir e gosto de acreditar que o melhor sempre está por vir, mas hoje eu só queria compartilhar um pouquinho desse gostinho bom que estou sentindo. Tenho momentos e dias muito difíceis por aqui. Mas a cada dia aprendo alguma coisa e a verdade é cada vez eu percebo mais que não sei é de nada e tudo pode mudar assim, num clique, e temos que estar preparados, sem nos deixar influenciar muito pelas turbulências, porque não é isso que fica. O que fica é o que você tira de melhor. Então vamos sorrir e aproveitar o que dá, não é mesmo?

Em uma semana faço aniversário, estou produzindo algo no trabalho muito bom, esse mês tenho aumento no meu salário, minha família chega em 5 dias e próxima semana estaremos de férias pela França. Que mais eu preciso pra ser feliz, meu Deus??

10 julho 2010

Um dia comum de verão

Acordar com calor, tomar banho, vestir uma roupa leve, ir pro trabalho de sandália e sem casaco, tomar café no trabalho, trabalhar, almoçar no terraço com o sol batendo no seu ombro, trabalhar mais, fazer pausa para o chá da tarde e ver como tá sol lá fora, criar coragem pra terminar as atividades do dia, sair do trabalho às 17h e ir à piscina com as amigas suíço-italianas e ficar lá atééé cansar. 20h ainda tá maior solzão.




















Um dia comum de verão.

08 julho 2010

Reichenbach falls

Bürgentstock, Meiringen... tão acompanhando? Bom, quem tiver acompanhando esta saga, agora chegamos ao final. Depois de visitar o museu do Sherlock Holmes em Meiringen e ficar sabendo que o autor colocou as cataratas de Reichenbach como palco do episódio onde Holmes luta com Professor Moriarty, cai lá do alto e finge sua morte no conto "The Adventures of the Final Problem", que é parte do livro "As Memórias de Sherlock Holmes", de 1894, decidimos ir lá conhecer.



















Pegamos uma espécie de bonde que subia cada centímetro dez vezes mais inclinando a gente. O medo ia dando espaço pras risadas. A vista a cada metro percorrido ficava mais sensacional. Quanto mais subíamos, mais ouvíamos o som da água forte caindo cada vez mais alto, e finalmente chegamos.
































































































As cataratas de Reichenbach têm um total de 250 metros de queda d'água. Essas fotos aí de cima foram tiradas na subida do bonde e até onde o bonde deixa a gente. Daí pra subir ainda mais, meu amigo, é trilha. Agora eu não fui preparada pra fazer trilha, ne, tava de sandália havaiana. Mas eu subi mesmo assim. No meio ainda encontramos uns espanhóis que olharam pra sandália da gente e disseram "Danger, danger" hehehe. Graças a Deus deu tudo certo. A subida tinha alguns pontos estratégicos como mirantes para descanso, onde a gente pôde fazer fotos maravilhosas e apreciar a bela Suíça.




























































































































A gente não chegou a ir até lá no topo onde tem essa casa aí na foto de cima, que na verdade é um restaurante. Que na verdade mesmo deve ter é um prêmio lá em cima pra quem chegar. Mas chegamos até a parada anterior e de lá voltamos.




































A parada anterior à última na verdade era essa pontezinha aí. Depois de atravessá-la, estávamos convencidos que era suficiente.


































Além do cansaço, das sandálias havaianas e de pensar em voltar tudinho que tínhamos subido, ninguém ali era "trekker pro" pra chegar até lá em cima e dizer "cheguei". Aloir, então fomos descer. Sinceramente eu não sei o que foi mais difícil: a subida ou a descida. Já tava ficando era zonza de tanto zigue zague no meio da floresta. Chegou uma hora que não sabia mais pra onde ir.








































Mesmo com as dificuldades, a verdade é que foi uma delícia subir e descer isso aí. Pra mim, eu tirei de letra. Era uma experiência que eu nunca tinha tido antes, eu nunca tinha estado perto de waterfall assim. E adorei. Mas de novo só faço se for bem preparada pra missão. Aqui na Suíça tem dos mais variados tipos de trekking por florestas e áreas verdes no meio do nada assim. Trekking aqui é mesmo um esporte. Até no inverno o pessoal se prepara com roupa e comida e vai. Quem sabe da próxima vez não me atrevo a trekkings ainda mais radicais. ...será?

07 julho 2010

Meiringen

Aí saímos de Bürgenstock e fomos atrás de Meiringen, que é conhecida por ser a cidade onde o Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, passava férias e terminou sendo palco central das cenas finais da história "The Adventure of the Final Problem", onde o personagem Sherlock Holmes luta contra o vilão Professor Moriarty. Vou contar mais sobre isso mais pra frente.

Pegamos a estrada e fomos procurar a entrada pra cidade, que é minúscula, tem menos de 5 mil habitantes e tivemos que checar no mapa pra ver se tava certo mesmo o caminho.




































Encontramos a estrada, eu concentrada pra não passar mal com tantas voltas e mais voltas subindo as montanhas, no final deu tudo certo, só fiquei meio tonta no começo. Encontramos Meiringen.




































Achei muito linda a cidade, típica cidade de interior suíça bem ajeitadinha, e pelo fato de ter sido onde o criador de Sherlock Holmes passava férias e terminou incluindo a cidade na história, a cidade hoje tem um museu de Sherlock Holmes na praça Conan Doyle (nome do autor), onde se paga 4 francos e conhece-se mais um pouco da história do personagem de tanta fama não só em Londres, mas no mundo todo.


































Tentaram reproduzir aí em cima a casa de Sherlock Holmes com cada detalhe sendo explicado no áudio, íamos andando e ouvindo a história do personagem. Interessante também que havia algumas cartas que pessoas de fato mandavam pro endereço mencionado no filme pedindo ajuda do detetive em casos de investigação, uniformes da polícia inglesa do século XIX, muito interessante.




































Eu nem me interessei muito em assistir o filme que passou há pouco tempo no cinema sobre Sherlock Holmes com Robert Downey Jr., mas confesso que agora fiquei interessada, vou procurar assistir. As cenas que Sherlock Holmes luta com o vilão, como comentei antes, na história acontece nas cataratas de Reichenbach, que também fomos lá conhecer. Mas isso eu conto no próximo post.

Meiringen tem esse nome, segundo a lenda, porque um italiano criou por lá pela primeira vez em 1600 e alguma coisa um doce feito de açúcar e clara de ovo batida, que é o conhecido "merengue", ou suspiro em português

06 julho 2010

Bürgenstock

O nome do lugar é Bürgenstock. Eu mesma demorei pra aprender. É uma montanha que fica sobre o lago de Lucerna e é famosa pela vista fan-tás-ti-ca de quase todo o lago.


















Não tinha ouvido falar de lá, mas quando soube que era a montanha onde tinha sido filmado um filme do 007 alguma coisa conhecida me veio a cabeça. Lá tem um resort, um hotel chiquerésimo rodeado de Suíça, e os arredores são abertos pra quem passar. Umas cortinas nas entradas do hotel, mas nada muito hollywoodiano. Aqui é a Suíça e não tem disso.




















Fui parar aí por obra do destino. Vou contar. Estudei em 1999 em Recife, tinha acabado de chegar dos EUA do intercâmbio, Recife era uma cidade nova pra mim e lá fui eu fazer 3o ano. Não fiz tantas amizades assim, mas as que fiz, ficaram. Conheci muita gente, sim, claro, mas de manter contato, poucos. Até que uma amizade que mantive contato com quem conversei ano passado quando tinha chegado aqui há pouco tempo, me disse que uma conhecida em comum da gente estava aqui também, na Suíça, morando aqui. O quêê? Morando aqui? Quem, quando, aonde, como? Pois bem. O nome dela é Magali, trocamos poucas palavras no 3o ano, estávamos muito ocupadas estudando pro vestibular, ne. Por obra dessa nossa amizade em comum, entramos e mantivemos contato, e este fim de semana, depois de 11 anos, finalmente nos encontramos.




















Uma receptividade digna de brasileira de primeira categoria, uma família linda, uma casa que é um brinco, me senti tão bem e tão a vontade que mal pude acreditar. Num dos primeiros fins de semana de volta à solteirice quando eu buscava o que fazer, sem ter nem pra que ela me convidou pra ir com Juca e tudo pra sua casa, dormir lá, passear, conversar, assistir jogo, ir à piscina. Oxe, não tive dúvida.


























Tive um fim de semana memorável. Conversamos, trocamos histórias e episódios da vida na Suíça, passeei pra caramba, conheci lugares fantásticos, e acho que agora ainda tenho companhia para futuros passeios e descobertas pela Suíça! Foi tudo muito legal e muito agradável. Tenho assunto e fotos para mais alguns posts, vocês não perdem por esperar. Cada foto... aliás, só teve uma coisa ruim nessa história toda... que agora quero uma máquina fotográfica nova e tirar fotos como ela.

02 julho 2010

Como sobreviver ao primeiro ano fora do Brasil

Quando se ouve "sobreviver" tem-se a idéia de estar passando por uma coisa ruim e ter que ser forte suficiente para continuar vivendo. Não é o caso aqui. Sobreviver que eu falo aqui é na verdade como passar pelo primeiro ano longe de tudo e de todos que se está acostumada. Não é nada fácil, mas não quer dizer que seja uma fase ruim. É preciso ser forte, aceitar as diferenças e estar preparada para diversas situações que você só vive quando se está longe. Sair correndo e chorar querendo voltar não vale, certo? Então agora que estou completando um ano de vida na Suíça, resolvi fazer uma recapitulação dos fatos e identificar o que realmente me ajudou a sobreviver este ano e como contornei as dificuldades.

- Idioma: todo mundo sabe que alemão é um idiomazinho complicado, ne. Alemão suíço, pra quem não sabe, não é a mesma coisa. Eu estudei alemão um tempo no Brasil mas chegando aqui foi pior do que quando tinha estudado inglês 4 anos e fui fazer intercâmbio nos EUA. Muita calma nessa hora. Por sorte, na Suíça também se fala francês e italiano. E quem sabe isso tudo sabe também um pouquinho de inglês. Então no começo, inglês era meu salvador da pátria. No trabalho, só se fala inglês e francês. Francês ainda estou aprendendo, mas sabendo um pouquinho de alemão, aprendendo francês e tendo o inglês do seu lado e é claro com muita simpatia e boa vontade, você consegue superar as caras feias que botam pra cima de você quando percebem que você não domina o idioma local. Bom humor salva. Há muitos estrangeiros na Suíça e você não é o primeiro nem o único passando por isso. Me matriculei logo num curso de alemão no nível que eu estava e assim fui praticando mais, ganhando mais fluência, além de fazer novas amizades e ter algo a mais pra fazer durante a semana é sempre bom pra se manter ocupada.

- Clima: quando cheguei aqui era verão. Eu estava vindo do Nordeste então pra mim foi perfeito. Continuei usando minhas sandálias de dedo, indo passear na rua de bermuda e blusa de alça, uma beleza. Com o passar do tempo vieram as tempestades assustadoras, chuvas sem fim, trovoadas e raios que parecia que ia derrubar meu prédio abaixo. Tudo bem, isso aí era o de menos. O tempo passou e chegou o outono, o frio aumentando e o inverno finalmente veio me visitar. Um frrrrriiiio de doer os ossos, de não conseguir passar 5 minutos lá fora, de todos os aquecedores ligados no máximo não serem suficiente, de chorar de saudade de ver o sol, de amanhecer um dia cinzento e nevando às 8:30 e 4 horas da tarde já estar escuro de novo, uma melancolia que parecia não ter fim, o inverno foi dureza. Mas sobrevivi. Agora já é verão de novo e tô aqui inteirinha. Muito, muito, mas muito bom humor. E muita roupa. Reservei uma grana pra comprar todo tipo de casaco, pulover até o pescoço, meias, meia-calça grossa nível 1, 2, 3, luvas, cachecóis, botas, nossa, foi frio demais. Eu não sabia que fazia tanto frio assim na Suíça. Também me disseram que esse inverno foi muito mais rigoroso que de anos anteriores. Mas é bom estar preparada antes pra não ser pega de surpresa e deixar o inverno te nocautear.

- Amizades: quando eu cheguei eu dava bom dia pra todo mundo que cruzava comigo na rua e ficava me encarando. Nem sempre as pessoas respondiam. Aqui é todo mundo muito individualista e apesar de educado, não é como no Brasil e ser educado aqui não significa ser simpático e amigável. Mas eu não conhecia absolutamente ninguém, e não tava nem aí. Quem fosse simpático comigo de volta pra mim era lucro. Não fiquei de frescura, não fui cri cri, não julguei ninguém pela aparência e estava pronta pra conhecer gente diferente de mim. E o retorno apareceu. Conheci mexicano, irlandês, polonês, romeno, keninano, francês até dizer chega, italiano, alemão, canadense, holandês, português, japonês e é claro suíço. Uns me aproximei mais que outros. É fato que quando você diz que é brasileira, algumas pessoas são mais receptivas que outras. Outras ainda te julgam na mesma hora, soltam piadinhas e tentam te testar. Bom humor de novo. Nada de ignorância. Continue sendo educado e encare de frente o que aparecer. Prudência e compostura, já diziam meus amigos de Recife. Mais cedo ou mais tarde eles percebem que você não é (se não for mesmo) do tipo que sai na rua pelada no carnaval e tá aqui pra arrumar homem. E com os colegas, que depois viram amigos, terminam te chamando pra fazer alguma coisa, te apresentam novas pessoas, você de outra vez os chama pra fazer qualquer outra coisa e assim os laços vão se estreitando. E como isso é importante.

- Lugar pra morar: já comentei aqui que por diversas vezes pensei ter feito a escolha errada de morar tão perto do trabalho. Foi minha escolha no início, porque não conhecia a cidade e a vizinhança do meu trabalho me pareceu muito agradável. Hoje finalmente consegui concluir que foi a melhor escolha pra mim, pois eu já morava sozinha antes há 6 anos e dividir com alguém que eu não conheço e de outra nacionalidade não me parecia assim tão legal no começo. Além de tudo eu tinha intenção de trazer Juca, meu cachorro, quando a papelada dele ficasse pronta, e precisava de um lugar direito. Pensei em alugar um flat pequeno, mobiliado, prático e tal, mas o que achei eram minúsculos e do mesmo preço que um apartamento grande de 2 quartos, confortável, mas sem móveis. Ora, com um Ikea ao seu alcance me pareceu melhor e possível alugar então um apê normal e mobiliar aos poucos. Hoje ainda falta um bocado de coisa aqui em casa, mas tenho o básico e tô bem assim. Vou comprando mais coisas de acordo com as prioridades. E também não quero entulhos, ne. Então minha dica é saber o propósito. Se vais passar pouco tempo, se queres se fixar, se é algo fácil, prático e temporário, se queres arriscar dividir com alguém, enfim, há várias opções. Minha casinha hoje é meu cantinho e mesmo quando meu quarto tá uma zona me sinto bem aqui. Não sou fã de limpar, cozinhar, arrumar, mas às vezes até que é gostoso, porque é meu canto e quero me sentir bem aqui. Não ia me sentir bem num studio de quarto e sala que visitei uma vez na cidade que não tem espaço pra nada e os móveis lá não são meus. Pra passar uma temporada vale, claro, quando estive na Alemanha por 3 meses fiquei assim, e foi jóia. Mas vim pra cá sem data pra voltar, então tô feliz com a minha escolha.

- Cultura e costumes: esse tópico podia ser um post só, aliás vários posts. Até você entender de fato as manias do povo do lugar onde você tá, leva tempo. Digamos, no mínimo, 1 ano. Porque também os costumes dependem das estações. No verão, os suíços deixam de fazer qualquer coisa pra ir tomar banho no rio geladérrimo ou nas piscinas, como já comentei aqui. No inverno, são os fins de semana nos resorts de esqui nos alpes e tal. E daí, vem as particularidades de cada tradição, de cada atividade. É como se você chegar em Recife em agosto e precisar passar um ano pra chegar na semana santa do ano seguinte pra saber que todo mundo vai pra Gravatá e lá é assim, assim e assado. Suíço como bom europeu é educado demais, frio e individualista. Cansei de ver situações aqui que o suíço coloca a família em segundo plano pra alguma coisa que tenha que fazer por si mesmo. Adoram a natureza, sabem muito de esportes, são ativos e quase todo mundo sabe fazer alguma coisa muito bem (tocar flauta, jogar tênis, andar de snowboard, nadar, etc.). Não adianta, só o tempo vai fazer você ver os fatos e aí você vai poder entender o que todo mundo já te disse mas você não sabia que era assim até você presenciar o tal costume, a tal coisa. Dica: muita paciência. E de novo, nada de julgamentos. Você está no país deles então você que tem que se adaptar, e não eles entenderem você e se ajustarem ao seu jeito.

- Viagens: eu AMO viajar. Que mora na Europa tem o privilégio de ter trens e passagens de avião facilmente acessíveis. Uma viagem pra mim cura qualquer mal estar, qualquer mau humor. Adoro conhecer novos lugares, culturas, gente e costumes. Nem que seja só um fim de semana. É suficiente pra durar pra sempre. Tá mal? Busca uma passagem barata de trem, de avião, tira uns dias de folga e vai conhecer algum lugar próximo. Sozinha ou acompanhada, pra mim, sempre vale a pena.

Muito do que eu disse aqui me ajudou imenso no meu primeiro ano aqui. Sobrevivi bem ao primero ano. Como tenho dito nos últimos posts, estou em fase de transição pro meu segundo ano de Suíça. As mudanças vieram e continuam a vir. Não sei o que está por vir, mas tô pronta pro que vier. Blog continuará registrando meus passos. Tim tim à sobrevivência!

01 julho 2010

Estrangeira até quando?

Neste mês que completo 1 ano de Suíça, me sinto em fase de transição. Mais uma fase se vai, e alguma outra que eu ainda não sei qual deve estar começando. Tenho sentimentos contraditórios dentro de mim hoje. Como sempre, no início sou resistente às mudanças, sofro, questiono, procuro motivos, choro até perder os sentidos, mas no final, sempre termino enxugando minhas lágrimas, levantando da minha cama de manhã para mais um dia mesmo não tendo dormido nada à noite, tirando coragem não sei de onde, arrumando coisa pra ocupar o tempo, a cabeça, me metendo contente em qualquer convite que me pareça divertido, sorrindo pras pessoas que me cercam e feliz por sentir que no fim sempre dou a volta por cima e ver que tudo valeu a pena. Eu sou uma pessoa que está sempre sorrindo, sou descontraída, espontânea, procuro SEMPRE ver o lado positivo das coisas, mas tenho personalidade forte e tenho meus momentos.

Já me perguntei várias vezes se estar aqui era o certo, talvez porque eu sempre vá ter essa sensação, já que nunca morei muito tempo em nenhum lugar e não tenho raízes e lembranças de uma casa só na minha infância, uma cidade só na minha adolescência. Tenho um monte de lembranças e passei por muitas cidades, casas e escolas no Brasil. Sou mestre em arrumar e desarrumar caixa. Não quer dizer que eu ame. Resolvi saber o que tinha fora do Brasil, rodei vários países, morei nos EUA, na Alemanha, agora estou na Suíça por 1 ano. E tem tanta coisa ainda que eu quero ver... É, talvez eu nunca saiba mesmo como aquietar essa pergunta que não pára nunca no meu ouvido. Essa é a constante na minha vida desde que fiz 16 anos e tinha acabado de perder meu pai. Ahh, você não sabe de nada, a minha vida teve que mudar da noite pro dia, tive que mudar da água pro vinho, deixar de ser a caçula mimada e ser firme e forte pro que estava por vir. Ali sim foi barra. Ali sim eu não tinha a menor idéia do que eu tava fazendo aqui, na vida. Sem querer dramatizar o cenário já dramatizando, meu drama já foi de proporções maiores. Hoje eu posso me perguntar o que eu tô fazendo aqui, mas não tem ninguém morrendo. Eu sou saudável, tenho 2 pernas, 2 braços, tenho minha casa, meu emprego, meus amigos, minha família, é a minha vida. E os dramas eu vou lidando do jeito que dá, tentando ser feliz claro. É claro que as preocupações que rondam a cabeça de uma adolescente de 15 anos que perde o pai num acidente da noite pro dia são diferentes de uma mulher adulta de 27 anos viajada, estudada, morando na Suíça. Mas enfim. Cada um sabe onde aperta seu calo na situação que vive.

Hoje, com 1 ano de Suíça, olho pra trás e lembro como eu tava empolgada com a mudança, pronta pra tudo, vim saltitando de felicidade. Foi um ano maravilhoso. Nada fácil tenho que dizer, passei muitos perrengues, tive que me virar sozinha em tantas situações, mas não me arrependo de nada, teve muita coisa boa também. No começo era tudo novidade e eu tava feliz só em ir ali na esquina e ver os prédios da minha rua, ou em pegar o tram, e quando eu recebi meu primeiro salário em franco suíço? Nossa, me senti tão realizada. Fiz amizades, fui a shows, conheci lugares incríveis, comecei um namoro com um suíço, viajei, revi amigos do passado em solo europeu, senti muito frio, chorei de saudade, chorei de alegria... Eu gosto assim, de viver intensamente. Mesmo tendo dias normais de quarta-feira, de sair do trabalho, vir pra casa, deitar no sofá e ler 30 páginas do livro que tô lendo e pegar no sono ouvindo Vivaldi de fundo.

Mas o tempo passa, a novidade vira rotina, os prédios da sua rua já não são assim tão interessantes, as lentes com as quais você vê as coisas mudam e você muda de opinião, muda a forma de pensar, muda o que pensa sobre aquele cara que trabalha com você. E não é só porque tô na Suíça, tudo muda o tempo todo em qualquer lugar. E aí passa aquela fase e começa outra fase. Que deve ser a que devo estar começando agora.

De volta à solteirice, águas passadas, antigas e novas amizades, novos interesses, novos objetivos. Mesmos questionamentos. Desenvolvimento das minhas indagações.

Da última vez que fui ao Brasil rapidamente em maio, me senti diferente. Não me senti em casa e queria voltar pro meu apartamento na Suíça e pro meu trabalho. Aqui na Suíça, por outro lado, me sinto estrangeira. Tenho que me comunicar em outros idiomas, sou diferente das pessoas na rua, me visto diferente e meus olhos castanhos e meu cabelo ondulado entregam minha áurea não européia a quem me ver passar. Isso não vai mudar. Nem que eu fale o dialeto, estique e pinte meu cabelo de loiro. Nem sempre é ruim, nem sempre é bom. Ah isso é o de menos. Foi minha escolha, não estou reclamando.

Vejo o mundo ao meu alcance ali tão fácil e questiono ainda mais a razão das coisas e ainda o eterno "o que danado eu tô fazendo aqui". Já dizia Milton Nascimento em "Janela para o mundo": "Viajar, no fundo, é ver que é igual o drama que mora em cada um de nós, descobrir no longe o que já estava em nossas mãos. Olhar o mundo é conhecer tudo o que eu já teria de saber. Estrangeiro eu não vou ser. Cidadão do mundo eu sou".