30 novembro 2015

Moscou - Parte 1

Que coisa, ne? A viagem da Rússia tão sonhada, tão esperada, terminei tendo que dar um gap aqui no blog na publicação dos posts da viagem. Deixa então eu dar uma relembrada do que já foi escrito até agora... Fui a Rússia no início de setembro, os posts estão aqui na tag. Por diversos motivos, me afastei um pouco do blog nas últimas semanas e a sequência dos posts que sofreu com isso. O último post da viagem foi sobre os palácios de Peterhof e Pushkin, nos arredores de São Petersburgo, publicado em 22 de setembro de 2015. Já tem post de São Petersburgo, dos detalhes da viagem e introduções. O post seguinte seria então sobre a grande Moscou, que eu já havia começado a escrever mas terminei postando outras coisas no meio. Não terminei o post de Moscou ainda, estava até agora assim:
Juro que tentei escrever um post intermediário antes desse aqui, tem dois no rascunho... como se numa tentativa de adiar esse momento difícil, a desafiadora tarefa de escrever sobre Moscou. O post que vai ficar marcado aqui para sempre a viagem à capital da Rússia, a viagem que eu tanto sonhei. Tenho medo de falar demais da história e depois de uns anos não ter saco pra ler, tenho medo de não falar sobre a história e só ir falando do que fiz lá como um diário de viagem, e depois querer me lembrar do que aconteceu nos pontos que visitei e não lembrar mais da história. Pode parecer que esse "receio" possa acontecer com qualquer post de qualquer viagem, mas não. Estou cheia de dedos porque a Rússia é a Rússia! Então vamos ver o que que sai aqui nesse post hoje.
A capital russa exige ser explorada, demanda uma visita. Tem tanta coisa estrondosa ali de pé esperando pra ser vista... esse era no fundo o sentimento que eu tinha antes de visitar a Rússia. Essa impressão superficial, como se o que víssemos de longe, mesmo sendo enorme, fosse só a ponta do iceberg. Depois de conhecer São Petersburgo, que fui entendendo melhor e de perto a história dos czares e da União Soviética, lá em São Petersburgo mesmo, teve uma hora que pensei... "...e em Moscou, como deve ser?". Claro que eu já tinha visto fotos e vídeos daquelas ruas enooormes, largas, prédios comunistas e construções históricas. Será que seria igual a São Petersburgo? Tipo São Petersburgo sendo um pouco maior?
Bem... Moscou é muuuuuuuuuuuito mais que São Petersburgo! Mais digo maior, mais coisa pra ver, mais história, mais antiguidade, mais mordernidade, prédios maiores e mais antigos e mais importantes. Moscou vai muito mais a fundo na história russa, mas claro, sem tirar a importância de São Petersburgo. Moscou está definitivamente na minha lista de cidades top top top a serem visitadas. Iria de novo sem problemas e visitaria tudo de novo. Quer fazer uma viagem tipo "A VIAGEM" na vida? Vá a Moscou. 
Moscou é sinônimo de poder e prestígio há muito muito tempo. Desde o reinado do príncipe Ivan III quando a cidade floresceu e prosperou, no fim do século 15, aliás, foi a partir daí quando os príncipes/reis passaram a ser chamados de "czar", pois era o termo russo para "Cesar", o chefe do Império Romano. Aliás, não só o nome foi "importado" do italiano, o próprio czar russo chamou arquitetos italianos para construir muitas igrejas e catedrais, inclusive o famoso Kremlin, a sede do governo russo, que eu vou fazer um post a parte só sobre ele ainda.
Mas é ainda possível ir mais pra trás na história e falar da Rússia Kievana, lá no ano 1000, para enxergar as origens de Moscou e da formação da Rússia em si. É aí que digo que Moscou tem mais história, ou um peso grande na história. Não vou entrar em muitos detalhes, até porque não me cabe tanto conhecimento, mas a Rússia Kieviana foi o que levou à formação de três nações que conhecemos hoje: Ucrânia, Bielorússia e Rússia. Foi nesta época também que a fé cristã ortodoxa foi aceita pelos eslavos e é a principal religião da Rússia até hoje.
Moscou foi invadida muitas vezes por diversos povos ao longo dos anos, como os tártaros, os poloneses, pois sempre tinha a importância de ser o "centro" da Rússia, mesmo que não esteja geograficamente no centro do país que é hoje. Isso tudo mudou com a fundação de São Petersburgo pelo czar Pedro, o Grande, de quem eu falei tanto já nos posts passados. A antiga Petrogrado ficava às margens do rio Neva e isso foi visto com muitas vantagens na época. Moscou perdeu o status de capital em 1703.
A história russa também é marcada pela invasão das tropas de Napoleão Bonaparte em 1812 a Moscou. Os franceses encontraram uma cidade abandonada, principalmente no auge do inverno russo com temperaturas extremamente geladas. Napoleão foi posteriormente perseguido pelos russos, e depois da vitória, Moscou voltou a crescer em ritmo acelerado e virou capital novamente, desta vez da União Soviética, em 1918. Mas as dificuldades não pararam aí. O nazismo alemão chegou à Moscou, a cidade foi evacuada, incluindo Stalin, e várias preciosidades dentre prédios históricos e museus símbolos da história russa foram destruídos. Pessoas perderam a vida tentando salvar obras de arte e objetos de valor da corte russa.
Com o fim da USSR e Boris Yeltsin no poder em 1991, Moscou passa a ser capital da agora então Federação Russa e começa a crescer novamente, com expansões de linhas de metrô, oportunidades de trabalho, restaurações de prédios e museus. Moscou se transforma numa megacidade, uma cidade cosmopolita, cheia de história, cultura e vida, porém até hoje ainda luta contra problemas como crime organizado e diferenças sociais.
Até o parágrafo acima era o que eu tinha escrito até então sobre a Rússia. Falei tanto e ainda tem tanto o que se falar. Se voce me perguntar o que mais gostei de visitar em Moscou, eu vou ficar pensativa. Claro que dos pontos turísticos, a Praça Vermelha e o Kremlin são provavelmente os mais conhecidos, e eu hei de concordar da sua significância. Mas não quero tirar a relevância dos outros pontos turísticos que eu visitei, que são merecedores de atenção.
A Catedral de Cristo Salvador, por exemplo, que disputa o título de principal catedral da cidade, juntamente com a Catedral de São Basílio, aquela que parece um bolo confeitado, famosa em fotos e cartões postais da Rússia. Veja bem, a Catedral de Cristo Salvador que existe ali hoje, com as cúpulas douradas em forma de cebola, é uma réplica da original que foi explodida em 1933 durante o comunismo, pois ela representava a vitória do exército russo sobre as forças napoleônicas, sob a liderança do czar Alexandre I, um verdadeiro ícone do renascimento cristão ortodoxo. Foi destruída porque durante o comunismo ela foi considerada um símbolo do Império Czarista e havia a intenção de construir ali um Palácio dos Sovietes, ao invés da igreja. O projeto porém nunca foi concretizado. Nos anos 90 após a queda da USSR, os chefes da igreja ortodoxa russa lideraram um movimento para reconstruir a catedral, com o apoio da sociedade, e voila. Ali está ela.
A nova catedral de Cristo Salvador foi inaugurada no ano 2000, praticamente idêntica à original, resgatando assim o patriotismo e a cultura russa mais ainda. Eu visitei mas infelizmente não pode tirar foto lá dentro. Como disputar o título de catedral da cidade com um legado desses? Só mesmo a Catedral de São Basílio tem cacife para tal façanha.
A Catedral ortodoxa russa de São Basílio fica na Praça Vermelha e foi erguida entre 1555 e 1561, a mando do czar Ivã 4, o Terrível de quem já falei aqui também. O motivo da construção foi para comemorar a captura de importantes cidades russas e marca o centro geométrico da cidade e o centro do seu crescimento, desde o século 14. E por incrível que pareça, o que está lá hoje na Praça Vermelha, é a construção original.
Diferente da Catedral de Cristo Salvador, a Catedral de São Basílio consiste de várias igrejas e não uma grande igreja. Quando você entra, são 9 pequenas capelas no interior, entrelaçadas e quase escondidas uma da outra, entre escadas e passagens estreitas. Não tem nenhuma construção na Rússia como ela, nada parecido pode ser encontrado no milênio inteiro da tradição bizantina, é o clímax da arquitetura russa. Como eu disse, só ela mesmo para competir com a Catedral de Cristo Salvador.
A Catedral de São Basílio tem esse nome pois em 1588 o czar Fiodor Ivanovich ordenou que uma nova capela fosse agregrada ao lado da construção, sobre a tumba de São Basílio, conhecido como o "Louco por Cristo" e virou santo russo da igreja ortodoxa pois era um sujeito muito excêntrico, andava nu, carregava correntes pesadas e fazia pequenos roubos para dar aos pobres. Ficou conhecido por repreender Ivã o Terrível, por não dar a devida atenção ao edifício que virou igreja. Pela sua popularidade, a Catedral tomou seu nome.
A riqueza de detalhes e combinações de formas e cores do exterior da Catedral de São Basílio é realmente impressionante, como nada que eu já tenha visto até então. Diferente da Catedral de Cristo Salvador que é mais clássica e mais comportada. Dentro, a Catedral de São Basílio é também diferente e excêntrica, pois não se trata de uma grande igreja, mas de várias capelas, quase um labirinto, com paredes pintadas em estilo ortodoxo russo e muitos muitos detalhes.
Ora veja, só isso aí já é praticamente um post inteiro, de tanta história que tem pra contar. Aliás, acho que vou fazer assim mesmo, vou dividir o post de Moscou em 2 partes, para que não fique tão enorme, que dê até preguiça de ler tudo, e no próximo post conto dos outros pontos que visitei na cidade, com seu contexto histórico, como sempre faço, que tal? Acho que fica melhor.
Foram só 2 dias e meio em Moscou, mas o pouco tempo foi tão bem aproveitado, que as mil fotos não me deixam mentir. Estou aqui revendo as fotos e com uma sensação muito boa de ter podido estar lá, de ter realizado essa viagem finalmente. Quem tem acompanhado as notícias já viu que a Rússia é um país "perigoso" para se indispor, e tanto a Turquia quanto a Síria tiveram provas disso. Diante de uma pre-guerra que vivemos hoje, temo que o país perca ainda mais da sua história. Espero que não, espero que a paz sobressaia e que a Rússia continue aí, aberta a quem quiser vê-la, pois ela é única.

28 novembro 2015

"A Suíça contada em livros" no Swissinfo

Quando eu cheguei à Suíça em 2009, tive uma alegria enorme ao saber da existência do Swissinfo, um site completíssimo no que diz respeito a informação sobre a Suíça para o estrangeiro. Política, economia, cultura, sociedade, ciências e assuntos atuais em 10 idiomas diferentes, inclusive Português. Tudo de bom pra quem tá chegando pra morar em um país e não sabe direito como funcionam as regras, não é mesmo?
O Swissinfo faz parte da rede SRG SSR, que é o serviço da sociedade suíça de radiofusão e televisão (a Swiss Broadcast Corporation), veja aqui mais detalhesEu aprendi muitíssimo com esse site. Assuntos diversos, o Swissinfo era minha página inicial de notícias, afinal eu tinha que saber o que estava acontecendo de mais importante no país que estava morando. E até hoje o Swissinfo continua sendo uma das principais fontes de notícias que uso até hoje.

Com tudo isso, vocês imaginam a minha alegria em ter sido chamada para fazer parte de uma matéria no site em Português, sobre os livros sobre a Suíça, em Português!

O meu livro "Viver na Suíça" - altamente divulgado aqui no blog, se você ainda não conhece, leia aqui tudo sobre ele, inclusive como compra-lo - foi o primeiro na sua linha de interesse lançado em Português. Há vários livros sobre a Suíça e a cultura em Inglês e outros idiomas, eu mesma li vários. Mas em Português, não. Um segundo livro foi lançado também este ano por 3 brasileiras no mesmo foco do meu, o "Vida na Suíça", e nós estamos lá, dando nossa contribuição para esta belíssima matéria da Liliana Tinoco-Baeckert, vejam aqui: 

http://www.swissinfo.ch/por/escritores-estrangeiros_a-su%C3%AD%C3%A7a-contada-em-livros/41788472


Não ficou demais a matéria? Ela saiu essa semana!
Aproveitando aqui o embalo, pretendo lançar em breve uma versão online do meu livro e planos futuros de uma 2a edição são reais. Muito obrigada a todos que incentivam, comentam, leem e divulgam este bloguinho por aí, que começou tão inibido e hoje está aí participando de matéria no Swissinfo.

20 novembro 2015

Reflexões de outono

Estou aqui tentando voltar com a rotina do blog. Recebi algumas visitas durante outubro e novembro que me deixaram ainda mais ocupada nos fins de semana. Não estou reclamando. Adoro receber visitas e mostrar o que a Suíça tem de mais bonito para família e amigos. Além do que, aquece o coração. O blog que sofre com isso, mas como voces já sabem, eu já passei da fase de dúvidas se devo ou não continuar com o blog, fechar o blog por um tempo sem saber se volto, exposição demais e etc e tal, isso não acontece mais. Quando eu fico um tempo sumida, é só questão de tempo mesmo até eu voltar. O blog virou um hobby que eu levo muito a sério.
Satisfações dadas, vamos ao que interessa: a vida! A vida aqui pra variar tem sido bem corrida, tenho trabalhado muito e ainda quero escrever mais sobre isso. As experiências diárias são muito ricas, em vários sentidos. Depois que o verão foi indo embora, lá por Agosto, até escrevi esse post aqui, teve a viagem à Rússia, que aliás eu também ainda não terminei de escrever (aguarde que vem mais!), e em Setembro eu só escrevi sobre a Rússia. Foi em Setembro que os dias quentes foram ficando mais curtos e mais espaçados uns dos outros, intercalados com dias de chuva e cinzentos. 

Em Outubro comecei a receber visitas aqui em casa, e aqui no blog só me sobrou tempo pra divulgar a reportagem na Record e a revista Brasileiros mundo afora, que aliás, voces não acharam demais?! Foi em Outubro mesmo que o outono deu finalmente as caras, tivemos dias liiiindos de sol e um show de cores da natureza. 

Cheguei tarde aqui pra falar sobre isso esse ano, mas antes tarde do que nunca, não é mesmo? Hoje já passamos da metade de Novembro e apesar de ter sido o Novembro mais quente da história na Suíça, o frio está ameaçando chegar logo logo. Há alguns anos atrás a essa época já estávamos com neve e temperaturas beirando os graus negativos. Semana passada tivemos 18 graus, o que é totalmente inusitado para Novembro. Além de sol brilhando, mesmo que por poucas horas, faz uma diferença danada no nosso ânimo. A essa época os dias são cada vez mais curtos. Amanhece cada vez mais tarde e anoitece cada vez mais cedo. É comum agora acordar escuro, sair de casa pro trabalho ainda escuro e quando sair do trabalho já estar escuro. Deprimente, mas vai passar. Faz parte do ritual.
Com isso, dava pena ter que trabalhar dentro do escritório durante um dia de outono tão lindo lá fora, quando eu só podia olhar da janela, ou curtir o sol na hora do almoço. Por sorte tive fins de semana quando o sol ainda insistia em alegrar nossa vida por mais tempo. Que dias lindos. Não sei se tem a ver com a idade, maturidade ou porque moro na Suíça que me dá a chance de estar mais ao ar livre quando tenho tempo livre, sem ter que me preocupar com segurança... que hoje posso dizer que aprendi a apreciar muito a natureza. Isso também porque o inverno é tão longo e temos tão poucos dias durante essa estação que podemos aproveitar lá fora, que enquanto temos dias de sol, estamos lá fora aproveitando. Acho que esse hábito suíço (europeu?) eu já acolhi. Para mim não tem nada melhor que um dia de sol num lugar bonito, repleto de verde, um lago, ar puro. E eu sei que eu não era assim há uns anos atrás.
Eu já fiz alguns posts reflexivos sobre o outono aqui no blog, veja a tag, como se fosse uma despedida longa dos dias quentes e uma preparação psicológica para o duro inverno que sempre vem. Normalmente o outono é bem curto, quando percebemos, o inverno já chegou. É uma época bucólica, quando as ruas começam a ficar mais vazias, as vitrines das lojas mudam drasticamente com muitas peças de roupa em um manequim só, as folhas das árvores caem. É a hora certa para tirar os casacos do fundo da gaveta de novo, passar menos tempo do lado de fora, renovar o guarda roupa, é a hora de valorizar os dias de sol, os dias quentes, se dar conta que o ano passou rápido e que já estamos no final de mais um.
É amigos, a natureza continua seguindo seu ritmo, sua sequência anual de estações, e mesmo que todos os anos tudo se repita, ainda ficamos maravilhados com o espetáculo diante de nossos olhos. A mudança das estações, a mudança de cores, de clima, de humor até. O inverno vem aí. Estamos preparados? Quem é que alguma vez esteve preparada para um inverno? Veremos o que vem por aí. Tudo para que no ano seguinte, tudo se repita de novo.

19 novembro 2015

A crise dos refugiados, a Suíça o terrorismo

Infelizmente é isso aí. Chegamos num ponto tão ruim, mas tão ruim, onde o medo e a sensação de insegurança são involuntários. Não apenas pela comoção pelos outros, mas por nós mesmos. E se fosse comigo? E se fosse eu? Já não bastasse a complicada situação dos refugiados da Síria e o drama que toda essa história desenvolve nas vidas envolvidas em tantos lugares diferentes, o agravante perigo do terrorismo se misturar com o perfil de quem está precisando de ajuda é o pior que poderia acontecer.

Independente de ser pessimista ou otimista, a situação chegou num ponto inesperado. Que o povo não está satisfeito com seu governante, seja ele um ditador ou não, é comum, já vimos essa luta em vários países ultimamente, felizmente com uma vitória da democracia no final, na maioria dos casos. No caso da Síria, o país se enfraqueceu tanto com essa insatisfação e com a rebeldia que até então parecia até tímida diante do que estava por vir, que deu espaço para um mau muito maior.

O terrorismo não é exclusividade do século 21. Abra um livro de história e vai constatar que o mau parece até ser natural do ser humano. Seja figurado por um indivíduo que veste uniforme militar, ou por uma nação que se acha melhor e mais poderosa que a outra, pou por um grupo inicialmente minoritário que usa a religião para justificar a brutalidade contra seres humanos, o mundo continuamente luta pelo colapso do mau, pela vitória do bem, pela liberdade, por direitos, pela igualidade de direitos.

A Suíça conhece de longe esses cenários, pois tradicionalmente se mantém distante de decisões complicadas que envolvam derramamento de sangue e engajamentos que possam trazer consequências drásticas no futuro. Não lutou a primeira guerra mundial, não lutou a segunda guerra mundial, permanece sempre na retaguarda. Por aqui parece que a paz existe de fato, ou o povo pelo menos continua lutando por ela, mesmo que em plebiscitos dominicais, expressando suas preferências e a força da maioria.

Sendo então um lugar tão distante de tais problemas, torna-se, por outro lado, alvo de quem de fato está em tais situações difíceis, quando precisa-se lutar pela vida. Em 2014, a Suíça foi o 8. país na Europa mais procurado para abrigar pessoas perseguidas por governos reprimentes, os dados são do Swissinfo, veja o gráfico abaixo:

Fonte: Swissinfo
Mais de 200 mil sírios pediram asilo na Europa desde 2011, quando o conflito começou. Este número sem dúvida aumentou muito durante 2014 e mais ainda em 2015, quando a crise na Síria aumentou, principalmente com o gradativo domínio assustador e o terror espalhado pelos jihadistas do tão chamado Estado Islâmico, que já aterrorizava o Iraque obrigando pessoas a se converterem ao islamismo e viverem de acordo a sua interpretação sunita de sua religião. Aqueles que se recusam a obedecer sofrem punições e são encarados como infiéis, merecendo qualquer tipo de tortura e violência.

A Síria está hoje praticamente sucumbida pela brutalidade e intratabilidade do Estado Islâmico. A ditadura de seu ainda atual governante Bashar al-Assad que incomodava tanto os EUA, hoje em dia parece uma gota no oceano diante de tanto horror, que se já era terrível apenas o que se era feito na Síria, que querendo ou não, era apenas um país, um espaço de terra, parecia mais fácil "salvar" apenas um país... infelizmente conseguiu literalmente chegar até mais longe, aliás aqui do lado, na França.

A guerra ocidente versus oriente não é de hoje. Estamos vivendo hoje mais uma versão de conflitos antigos, porém o de hoje é acentuado pela religião, que deveria nos tornar pessoas melhores, mais espirituais, mais bondosas e mais gentis uns com os outros. Lá nessa parte do Islã, eles fazem o contrário.

E diante de tudo isso, eu me pergunto, o que será da Síria depois de anos de guerra, de destruições e bombas e múltiplas explosões diárias, e seu povo que se não tiver esfalecido por lá mesmo, está por aí migrando para o resto do mundo, ou perdendo a vida no meio do caminho? O mundo viu a foto do garoto Aylan já sem vida numa praia na Turquia, estampando as manchetes de todos os jornais do mundo o alerta sobre a crise dos refugiados. O que será da cultura síria, da capital Damasco e suas mesquitas seculares, se é que ainda resta alguma de pé? 

E quem consegue levar a cabo a fuga da Síria e chegar aonde quer que seja, como será a vida dessas pessoas num país totalmente novo, estranho, diferente, com outra cultura, outros hábitos, outra religião? Sobreviver a travessia parece ser o menor dos problemas, quando se vê o problema a longo prazo.

Eu fiz há algumas semanas uma reflexão espontânea sobre esse assunto no Snapchat (@elaeamericana) e fiz uma analogia meio pobrinha com a minha situação aqui. Ora, eu não sou refugiada, vim pra Suíça por minha conta e risco, e olha as situações que eu passo aqui. Sobre cultura, sobre idioma, sobre amigos, sobre família, sobre tudo, é uma nova vida que tem que se aprender a viver em outras regras e outro cenário, que até então se conhece quase nada ou muito pouco. Pra mim já é difícil, eu que venho de um lugar que a cultura não é lá tããão diferente, eu me visto até parecido com o pessoal daqui, a religião não é diferente e os hábitos diferentes são compreensíveis, se eu pensar bem. Imagine pra quem vem de um lugar onde TUDO é diferente, e ainda em situação de stress, medo e tensão.

É claro que se faz tudo para sobreviver, e estando vivo, quando se poderia não estar, o que menos importa é o lugar. Concordo. Mas continuando vivo, a vida continua, e continuando a vida, é preciso vive-la, seja trabalhando, falando, comendo, indo a igreja, se comunicando. Enfim. A adaptação dos refugiados não só aqui na Suíça obviamente mas no mundo inteiro que estão os acolhendo é uma questão seríssima, que eu tenho certeza que consequências, mudanças de comportamento e desvios de cultura virão a tona mais tarde.
A Suíça assim como vários países europeus que estão recebendo refugiados entendem que é uma situação extraordinária, as cotas foram estouradas e as regras são quebradas quando se fala de vida. São vidas em jogo. Refugiados são bem vindos aqui, a acolhida pela vida é bem vinda aqui. Porque a Suíça e países de primeiro mundo tendem a ter uma postura do bem, pela vida e usar de seus meios para isto. Aqui mesmo perto de onde eu moro há um centro de refugiados, e eu recebi uma carta há um ano, informando sobre a chegada de mais refugiados, explicando a situação, e me convidando e convidando a todos os moradores da vizinhança para uma reunião esclarecedora de perguntas, que claro, não são poucas.
Eu não fui à reunião, mas o tema é constante aqui entre os meus vizinhos. Constantemente os vemos pelas ruas, sempre em grupos, tímidos ou inseguros, com roupas diferentes. O que será que passa na cabeça deles, eu me pergunto. E onde estão suas famílias. A Suíça recebe muitos refugiados como medida imediata e eles permanecem aqui enquanto a situação de cada um é analisada. Às vezes eles continuam na Suíça, recebem apoio do governo para continuar a vida, arrumar um trabalho, alugar um apartamento, sair do centro de refugiados, trazer sua família. E às vezes são encaminhados para outros lugares, outros países. O tema é bem complexo e polêmico.

O processo para conseguir asilo na Suíça também não é muito simples, obviamente o governo faz diversos checks mas se for confirmado o perigo de vida, o refúgio é conseguido. Os refugiados recebem um tipo especial de permissão de residência na Suiça. 
Mais informações aqui: https://www.ch.ch/en/applying-asylum/

Desde os ataques horrorosos em Paris na semana passada, as principais estações de trem estão com policiais com metralhadoras, coisa que eu jamais havia visto aqui até então. A Suíça não atacou a Síria, assim como não atacou ninguem, e seguindo a lógica do Estado Islâmico... erro meu, não há lógica no que fazem, mas tentando encontrar uma razão na cabeça deles pro que eles fazem, há "razões" por Paris ter sido o alvo... sendo assim, sem "razões" concretas de ações da Suíça contra a Síria, não há porque um ataque acontecer por aqui. Mesmo assim... o mundo está em alerta. O governo suíço disse ontem que não há razões suficientes para introduzir um controle sistemático nas fronteiras para evitar um ataque no país. Não há ameaças por aqui.

A crise dos refugiados põe na mesa já há alguns meses o desafio para a Europa, ainda mais agora com os atentados recentes em Paris e a ameaça de mais atentados, a dúvida de jihadistas estarem entrando an Europa por esse meio. O que fazer? A maioria dos estados dos EUA está convicta de que parar de receber refugiados no momento é a melhor solução para frear o terrorismo iminente. Mas se fizer isso, pessoas inocentes que estão precisando de ajuda vão ter portas fechadas dos países que poderiam de fato salva-las? Estarão presas e sem saídas nas mãos de terroristas brutais? 

Se olharmos no passado e vimos que os judeus que eram alvos de alemães nazistas tiveram que emigrar para salvar suas vidas, o modelo da situação parece coincidir. Quando será que a humanidade vai aprender, e parar de usar a religião e o próximo para justificar suas neuras e psicoses?

É realmente aterrorizante se começarmos a pensar, refletir... por isso talvez eu tenha até evitado escrever sobre o assunto, nem me estender muito quando começo a falar, porque eu tenho um filho, e eu gostaria que o mundo fosse melhor para ele, e não essa crueldade que vejo e ele ainda não entende. Se já foi assim no passado, continua sendo assim agora, de novo, hoje no presente, quem me garante que ele não vai viver esse mesmo terrorismo, ou talvez até pior, daqui a alguns anos?

06 novembro 2015

Rendez-vous Bundesplatz em Berna 2015: "A Jóia da Montanha"

Há 5 anos a fachada da sede do Parlamento suíço se torna o pano de fundo de um espetáculo sensacional. Todo fim de ano em Berna, a capital suíça, onde eu tenho o prazer de morar pela segunda vez, a Bundesplatz é onde literalmente acontece o Rendez-vous. Em Francês, Redez-vous significa "um encontro em um local marcado". E é esse o melhor resumo do que o evento representa.
De 16 de Outubro a 29 de Novembro, diariamente às 19 e às 20:30h, um verdadeiro SHOW ao ar livre. Seria já um show só pela projeção de luzes e som produzidos no espetáculo, mas não apenas isso, a projeção conta uma história em torno de um tema, e o principal: as luzes projetam um filme e combinam simetricamente com as formas da construção do Parlamento, as pontas, as colunas, as esquinas dimensionais dos tetos e todos os detalhes que talvez eu nem tivesse percebido até então. Fazendo parecer o show tão real, tão vivo e tão incrível que é até emocionante.
O tema do espetáculo é diferente todos os anos, mas sempre gira em torno de algo suíço. Este ano o tema é "Das Juwel der Berge" em Alemão, e em Português quer dizer "A Jóia da Montanha". Ninguém mais apropriada para brilhar como artista principal neste tema do que ela, a Matterhorn, aquela montanha famosa, que está até na embalagem do chocolate Toblerone. Sendo fiel à descrição do show do próprio site oficial do espetáculo, a história contada no show começa no início dos tempos, quando a Terra ainda é uma bola de fogo, e lentamente o planeta passa por mudanças glaciais e impactos geológicos. Das profundezas da Terra, nascem os Alpes, e lá está ela, a Matterhorn.
A evolução dos anos, as mudanças, a chegada dos animais, do homem, as transformações, olha, é muito bem feito, muito impressionantemente bem feito. A produção este ano ficou im-pe-cá-vel. E o melhor de tudo isso: o espetáculo é de graça. É só chegar lá, arrumar um bom lugar, esperar a hora chegar e curtir. O show só acontece graças ao apoio financeiro e incentivo de patrocinadores e empresas parceiras. E quem ganha com isso é a população. A cidade fica super animada e movimentada a noite.
Depois que acabou o horário de verão e a gente aqui "perdeu" 1 hora de sol a noite, a noite chega mais rápido a cada dia, e é claro que à noite, o show fica ainda mais interessante. E a essa época o frio ainda não está tãããão intenso e ainda dá para ficar 25 minutos lá fora a noite assistindo ao show sem tremer as pernas. Mesmo assim, ao redor há barraquinhas de bebidas e lanches, inclusive o famoso glühwein, o vinho quente que ajuda a aquecer um pouquinho os dias (ou noites) gelados.
Um copinho desse de vinho quente custa 5 francos mais 2 francos de depósito do copo. Devolvendo o copo lá na barraquinha quando acabar de tomar o vinho, voce pega seus 2 francos de volta. De praxe. O fluxo de carros e ônibus também é interrompido e alternado para outras ruas entre 19 e 21h nas ruas próximas ao Parlamento para não atrapalhar o show. É realmente imperdível para quem mora na cidade, e uma ótima sugestão de programa e passeio para quem mora mais distante. Eu super recomendo!
Eu filmei alguns vídeos e postei ao vivo no Snapchat (meu usuário é: elaeamericana), mas os vídeos só ficam lá por 24 horas. No Youtube eu achei o show na íntegra, mas dos primeiros dias que passou, quando às 19h ainda tinha claridade do sol. Mesmo assim dá pra ter uma ideia de quão fantástico é esse show, de uma olhada aqui https://www.youtube.com/watch?v=OAFjTCdoqSM, ou procure por "Rendez vous Bern 2015".

Mais informações aqui: http://www.rendezvousbundesplatz.ch/