26 novembro 2014

Frauenfeld

No fim de semana que estava conhecendo cidades mais 'desconhecidas' aqui na Suíça, uma das paradas foi Frauenfeld. Ao pé da letra, é o campo das moças. Frauen é o plural de Frau que é Senhora. Por que esse nome?! Queria saber também. A informação histórica que consegui só tem a ver com cavaleiros de famílias ricas que moravam ali, do Império dos Habsburgos e tudo mais, mas nada sobre as moças.
Enfim. Frauenfeld é a capital do cantão de Thurgau, onde também fica Arbon e Weinfelden, que falei em posts passados, no nordeste da Suíça. Tem pouco menos de 25 mil habitantes e fica a 40 minutos de trem de Zurique. Aqui na Suíça a cidade é mesmo conhecida pelo festival OpenAir Frauenfeld que acontece no verão e sempre tem atrações legais.
Fora isso, não vi nada de muito diferente em Frauenfeld não. Como toda cidade suíça, é super fofa, organizada, com um centrinho legal de andar, cheio de bandeirinhas suíças e do cantão, uma igreja, enfim, tudo muito agradável mas nada demais. Acho que tirando o festival que deve atrair bastante gente no verão, a atmosfera na cidade fora dessa época é bem pacata. Claro pra quem não mora aqui só esse "agradável normal" já é demais, e eu como pareço que nunca vou deixar meu encanto pra trás, ainda também me encanto com essas "normalidades".
Outro dia recebemos um colega do trabalho que é de Israel e veio passar dois dias aqui pra dar um treinamento e ele disse: Aqui na Suíça é tudo muito calmo. E eu e os suíços na mesa olhamos um pro outro e comentamos...: é... normal. Mas eu que não sou de fato daqui sei como é a vida na correria e na barulheira e stress de transito, etc. Seja na India ou no Brasil mesmo, sei como a vida pode ser diferente e influenciada sem essa "tranquilidade normal" daqui que faz parte da qualidade de vida que eu tanto busquei na vida.
Pra mim, só em poder sair num dia assim qualquer e fazer um passeio desse, andar na rua sem medo, na calmaria mesmo que muitos chamam de tédio, isso pra mim conta muito, é a minha fonte de energia e inspiração pra muita coisa. Então numa sexta-feira livre fomos lá conhecer a tal Frauenfeld eu e Edi. Era setembro, começaaaando a tirar aquele ar de verão dos nossos dias, começando a por um casaquinho, uma jaquetinha. Edi de colete andando pelas ruas da cidade foi inesquecível. Assim como o Coupe Dänemark que tomei lá num cafe pra encerrar o passeio. Enfim nada demais, mas quem tiver com tempo sobrando, é um ótimo passeio.

22 novembro 2014

Como é trabalhar na Suíça (alemã)

Coloquei "alemã" entre parênteses porque nunca trabalhei na parte francesa ou na parte italiana, então algo pode não aplicar. Bom, pra quem não lê esse blog com frequência, vou me apresentar. Moro e trabalho aqui na Suíça desde 2009, como engenheira da computação. Minha especialidade é testes de software, qualidade de software, automação de testes. Fiz mestrado nessa área ainda no Brasil, e isso me ajudou a conseguir um bom emprego aqui.

Em primeiro lugar pra trabalhar aqui, você precisa de uma permissão de trabalho. Eu expliquei nesse post aqui como arrumar emprego na Europa, baseado nas minhas experiências até então e informações meio generalizadas assim. Onde procurar de fato emprego, como é o processo, etc. mas o post já tá meio antigo e com tantos emails que venho recebendo sobre o assunto resolvi escrever um novo e com mais detalhes da vida no trabalho. A questão é que só posso falar mais da minha área, Informática, que é a que eu trabalho. Obviamente os detalhes vão variar em outras áreas e eu provavelmente não vou saber responder perguntas detalhadas de como é o trabalho de outras áreas.

Mas como eu ia dizendo, pra trabalhar aqui, você precisa de uma permissão de trabalho (alinhada a sua permissão de residência), emitida pelo Ministério do Trabalho (Arbeitsamt), e sendo você estrangeiro, o processo anda junto com o Ministério da Imigração (Migrationsamt) que juntos vão analisar o seu caso. Mas que caso? Pois é. Pra submeter o seu caso e conseguir uma permissão de trabalho (que é também a de residência, neste caso - se você não for casada com suíço, alemão, etc. nem tiver passaporte europeu), você precisa de um contrato de trabalho já em mãos, isto é, todo aquele processo que eu expliquei no post antigo de procurar emprego, mandar curriculo, fazer entrevista, etc. já deve ter acontecido.

Durante o processo de seleção do emprego, voce tem que ser claro que precisa (se precisar) do sponsorship da empresa para uma permissão de residência (trabalho). Dependendo do seu status no país, a empresa tem que bancar a "briga" no governo para te ter trabalhando com eles. "Briga" porque brasileiro vem lá no final da lista de prioridade de nacionalidade de aceitação, quando a questão é pegar um emprego, que teoricamente poderia empregar um suíço ou um cidadão europeu. A empresa "dar" o trabalho para um brasileiro ao invés de um suíço ou europeu não é assim ohh que simples, ela precisa provar junto aos ministérios o quanto aquela pessoa é necessária para aquela vaga, para que o governo de fato aceite os argumentos e emita a permissão de residência (trabalho) daquela pessoa. Essa briga e provação toda dura semanas, as vezes meses, custa dinheiro e nem toda empresa está disposta a fazer isso. Eu mesma fiz várias entrevistas que quando dizia que precisava que a empresa pedisse minha permissão de residência, eles desistiam na hora. Exatamente por isso é SUPER importante que você tenha algum diferencial, seja especialista em alguma coisa, tenha mestrado, doutorado, cursos, sei lá, o escambal, pra empresa de fato topar a luta contigo.

Outra coisa é que não é qualquer empresa que tem cacife pra bancar essa briga. Empresas pequenas normalmente precisam de poucos especialistas e esses são sempre locais, pois são eles mesmos que também fazem negociação com outras empresas locais e pra isso exige já expertise no idioma, e um estrangeiro recem-chegado ou que não domina o idioma raramente vai ocupar um cargo desses. Empresas pequenas são um pouco mais fechadas e têm menos chances de ter relações fora do país, então só isso aí é uma barreira grande. Já empresas maiores precisam de muitos especialistas e elas sim tem um departamento de Recursos Humanos mais preparados para lidar com tais questões, sabem quais passos tomar, como contactar, iniciar e levar a cabo todo um processo desses com o Ministério da Imigração e do Trabalho que não é simples, fácil, nem de graça. Elas também provavelmente já têm estrangeiros trabalhando nela, que, exatamente por ser grande, não cresceu apenas com trabalhadores suíços, pois o país é pequeno e carece de profissionais, principalmente na área de Tecnologia da Informação (TI).

Então acho que a primeira coisa se voce tá procurando emprego é ter certeza que tem um diferencial para oferecer, e procurar empresas maiores que devem estar mais abertas. Outra coisa que levanta muita discussão é o idioma. Muita gente me pergunta: dá pra trabalhar na Suíça só falando Inglês?  Eu digo: dá, MAS tem vááários porems.

De novo, o mercado suíço carece de profissionais, principalmente de TI, então eles têm que estar abertos a lidar com estrangeiros que inicialmente chegam falando Inglês. Ok. Dependendo da empresa que voce trabalhar, voce pode sim trabalhar com seu time todo só em Inglês. Mas vamos lá: isso varia de empresa a empresa, de chefe, do projeto, da área. Se você tá trabalhando num grupo há anos que só fala Inglês e de repente o chefe muda e este diz que agora se deve falar Alemão, você dançou. O preferencial é sempre o Alemão, gente, não tem como. E não só para o trabalho, falando Alemão você consegue se aproximar mais dos seus colegas de trabalho, entender as conversas entre eles, as piadas, enfim. Falando Inglês você vai sempre ser o estrangeiro que fala Inglês e isso sempre vai te limitar a se integrar na empresa e no time. E isso a longo prazo pode vir a ser um problema. Sendo uma empresa suíça mesmo (aqui na parte Alemã), o Alemão sempre vem em primeiro lugar. Dificilmente voce vai encontrar um chefão alto que fale só Inglês. Pode até ser estrangeiro, mas tem que falar Alemão.

Eu já tive experiência de trabalhar numa organização internacional, assim que cheguei aqui, quando todos falavam Inglês, inclusive os Alemães e (poucos) suíços que tinham lá porque o idioma oficial da empresa era Francês e Inglês. A desvantagem grande de trabalhar lá era porque a permissão que tínhamos para morar aqui era a que diplomatas têm e ela não me dava direito a absolutamente nada no país. Eu não era registrada na Suíça, pra Suíça eu não existia. Não pagava impostos, mas também não tinha direito a nada. Se perdesse o emprego, por exemplo, tinha que voltar pro Brasil imediatamente, não tinha direito a seguro desemprego, licença maternidade, nada nada. E isso pode ser bem perigoso. Pra não ficar sujeita a isso e porque também o trabalho não estava me agradando muito (contei tudo aqui) resolvi procurar outro emprego e arriscar o que eu já tinha por algo incerto, procurar uma empresa que resolvesse me bancar, todo aquele processo que expliquei no início, que lutasse por uma permissão pra mim junto ao governo, porque saindo daquele emprego, é como se eu estivesse chegando a Suíça do zero.

A sorte foi que eu encontrei o emprego que na época era a melhor oportunidade que me podia aparecer. A empresa lutou por mim, conseguimos uma permissão de residência (trabalho) temporária e assim eu pude trocar de emprego, assumir o novo trabalho, me libertar lá de onde eu tava e de fato chegar a Suíça, me registrar na comunidade, pagar imposto, começar a ter direitos. Enfim. Eu contei muita coisa aqui já nesse blog, se você quer saber mais, leia a tag trabalho.

A segunda empresa que eu trabalhei era uma empresa americana que tem vários escritórios pela Europa, sendo o da Suíça ainda pequeno. Tinha suíços, muitos alemães, um italiano, e só. A medida que você sai de organizações internacionais como eu saí e entra num ambiente industrial de fato você tem que passar pelo choque. É um choque. O ritmo é beeem mais acelerado, embora ainda um ritmo suíço, que é mil vezes mais tranquilo que nos EUA ou Brasil. O ambiente é mais competitivo, as pessoas são mais fechadas. Porque quando você trabalha em organização internacional, todo mundo que trabalha ali tá mais ou menos na mesma situação que você: estrangeiro, novo no país, não conhece muita coisa, muita gente e consequentemente está mais aberto, mais sorridente. Já no ambiente de trabalho normal não, o pessoal tá ali indo pro trabalho normalmente, eles provavelmente têm suas vidas, seus amigos fora do trabalho, e são mais fechados e o relacionamento se restringe apenas ao trabalho, profissinal. Isso deixa o dia a dia um pouco mais pesado e mais estressante, é a vida real, na verdade. Que é a mesma coisa em qualquer lugar. Mas estamos na Suíça, ne gente, nada é tão estressante assim.

Mas enfim. Eu passei pelo choque. Na nova empresa ninguém tava muito interessado em saber de onde eu vinha, qual é minha história, estávamos ali para trabalhar, apenas. E assim foi. Entrei no ritmo, trabalhei que só a bexiga, viajei a trabalho, e sugaram bastante de mim. E era isso que eu queria mesmo. Tinha acabado de terminar o Mestrado, eu queria mesmo era por as ideias pra fora, por a mão na massa, e tal. Era pra isso que eu tinha vindo pra cá.

Os cargos que ocupei até agora foram diferentes. No primeiro lá na organização internacional, fazia parte de um time de testes pequeno e eu era apenas analista. Tínhamos que testar o sistema, havia um processo, tínhamos que segui-lo, rodar testes, escrever testes, enfim. O básico. No meu segundo emprego já era um cargo mais responsável, eu era gerente de testes senior e tinha um time na Índia de quatro pessoas que tinham a tarefa apenas de executar testes, enquanto a gente aqui da Suíça tinha que fazer o gerenciamento dos projetos, organizar prioridades, enfim. Depois entreguei o time da Índia e passei a trabalhar com estudantes nos meus projetos que também tinham que executar os testes os quais ou eu tinha escrito ou selecionado para o projeto X que estava trabalhando. Era mais responsabilidade porque tinha dias que eu tava trabalhando com um time de 10 pessoas testando pra mim, e a partir do momento que você delega atividades você é responsável pelo resultado delas, mesmo não sendo você quem as executou. Isso significava que os testes podiam vir com resultados errados e se eu os divulgasse assim, a "culpa" era minha e eu tinha que lidar com as consequências. Era minha responsabilidade, ou de alguém que eu determinasse, ainda de provar que aqueles resultados estavam certos. Mas era mais um trabalho de gerenciamento, uma coisa mais intelectual, de tomada de decisões, menos mão na massa.

Já nesse agora que eu comecei há pouco é em outra área de testes, que é automação, uma área bem mais técnica e complexa. Eu faço parte de um time, não sou líder de um, e minha responsabilidade é desenvolver testes que rodem sozinhos (automaticamente) para economizar gente, horas de trabalho, dinheiro, pois os testes rodam sozinhos a noite por exemplo, e quando eu chego de manhã já pego os resultados. Bom, isso é um cenário ideal porque na prática há inúmeros problemas, principalmente em se tratando de testes e scripts em dispositivos móveis como iPad, iPhone, enfim. É um desafio muito grande, mas eu adoro porque tenho que por a mão na massa de verdade, ir lá no código encontrar falhas, desenvolver códigos, criar os testes rodando sozinhos na minha frente, então precisa de muita cabeça funcionando, e eu gosto de me sentir útil.

Vale ressaltar que você nunca fica no mesmo cargo por muito tempo. Eu passei 3 anos e 8 meses no meu último emprego e tive vários projetos, óbvio, mas a responsabilidade também muda, os times mudam, uma hora você é lider de um time, daqui a pouco você é parte de um, enfim. Isso eu acho massa porque você nunca se cansa do que tá fazendo. Se eu to agora trabalhando com automação, não significa que daqui a 3 anos vou ta fazendo a mesma coisa. Posso mudar e depois posso até voltar pra mesma área que comecei. O importante é mudar, experienciar outras coisas, novos desafios sempre, e isso aqui é bem comum.

Problemas existem, existiram e vão existir em qualquer empresa, em qualquer emprego, em qualquer situação, estamos vulneráveis a isso, não tem como fugir. Mas na minha opinião é preciso uma certa leveza pra lidar com problemas do trabalho sem deixar se sobrecarregar de stress e pressão. E graças a Deus essa best practice vem funcionando pra mim nos últimos tempos. Mas de novo, estamos na Suíça, isso significa que ok estamos sim vulneráveis aos problemas sempre, masssss: hora extra não é comum, embora vez ou outra o projeto exija que você se dedique mais. Embora tenha semanas que você trabalha totalmente relax, chegando as 9 no trabalho, fazendo pausas para o café, 1 hora de almoço, lanche da tarde e saia tranquilamente às 5, 5:30 da tarde. Tiveram dias também que tive que trabalhar no fim de semana junto com meu time, quando os testes tinham que ser terminados até segunda-feira e na sexta-feira ainda não tínhamos rodado nem a metade. Mas não é comum. Recompensas dependem das regras da empresa, voce pode receber pelas horas extras, pode tirar um dia livre para compensar, enfim. Aqui não se trabalha de graça. Também não é um problema se você não puder trabalhar no fim de semana, quando for preciso.

Aqui sempre respeitam muito o balanço entre vida pessoal e vida profissional. Principalmente agora que estou numa empresa 100% suíça (comecei um novo emprego há 3 semanas pra quem não sabe), isso é da cultura suíça. Se você tem férias marcadas, se vai tirar um dia livre, se precisa sair mais cedo, se quer trabalhar 4 dias na semana, se quer trabalhar uma semana de casa... não importa, o seu desejo é sempre prioridade, ninguém faz cara feia. Só precisa se acordado com seu chefe, mas normalmente o ambiente é sempre muito flexível e fazem de tudo pra que voce tenha uma vida equilibrada. Claro que voce tem que fazer sua parte, no que for acordado no seu contrato, com seu chefe, monstrar seu serviço, mas dificilmente vão haver exigências de tem que fazer isso assim ou assado, diferente do que foi acordado, e é tudo muito possível e flexível. Isso pra mim é fundamental porque ora, quando no Brasil eu ia conseguir trabalhar na minha área fazendo o que faço e conseguir trabalhar 4 dias por semana (trabalho de segunda a quinta) e dar conta de uma casa, um filho, um cachorro, pagar as contas, viajar.... isso me dá uma qualidade de vida que olha, é difícil trocar por alguma coisa.

O ambiente de trabalho é normalmente bem confortável. Na área de TI, sempre temos nossas mesas, recebemos um laptop, um celular. Como ficamos muitas horas na frente do computador e em reuniões discutindo projetos, bugs e medidas, sempre há máquinas de café, uma cantina com sanduíches, sucos, refrigerante, tudo para prover um ambiente no mínimo agradável que te possibilite passar as horas sentado da melhor forma possível. No meu atual emprego, tem vários sites, ou seja, vários prédios que eu provavelmente vou estar dependendo do projeto. No momento estou em um que tem um stand do Starbucks, e pelo menos uma vez por dia vou lá tomar meu hot choco ou café com leite.

As reuniões são sempre marcadas com antecedência, salas reservadas para o número esperado de participantes/convidados. Se há alguém que vai participar remotamente, há números de call bridge para ligar, enfim, o de praxe em dia a dia no escritório. Só que tudo muito bem organizado, com antecedência, como manda o figurino.

Normalmente temos um crachá que abre as portas dos prédios, e você pode carrega-lo com dinheiro também e pagar seu café, almoço e lanche debitando diretamente do dinheiro creditado do seu crachá. É muito prático e muito inteligente. Os prédios têm aquecimento claro mas nem sempre tem ar condicionado, o que deixa as salas menos confortáveis nos (poucos) dias quentes de verão, porque nem sempre dá pra abrir as janelas.

Mas isso é o de menos. Os salários normalmente são justos, mas nem toda empresa tem 13o. salário. Isso eu já comentei muito aqui. É uma prática bem comum pra tentar socializar com os colegas do trabalho, levar os assuntos do escritórios além das paredes do escritório e assim amenizar pressão em projetos, eventuais climas pesados, discussões em reuniões, etc. Geralmente os suíços sabem dividir bem uma coisa da outra, mas ne, uma ajudinha não vai mal.

Promoções e elevações de cargos acontecem normalmente através de avaliações que ocorrem em média duas vezes por ano, mas cada empresa tem suas peculiaridades e regras. É bem comum, tipo bem comum mesmo, fazer aperos, isto é, happy hour depois do trabalho.

Voltando ao assunto sobre as permissões de residência/trabalho, se você tem passaporte brasileiro e assim como eu não for casada com nenhum europeu, até conseguir a permissão C, você provavelmente terá que renovar sua permissão (L ou B) a cada ano. Para isso, é preciso da confirmação da empresa que você trabalha que você está lá empregado com tempo indeterminado. Dependendo do tipo da permissão (e do cantão, alguns são mais rígidos), exigem sempre a prova da empresa que você é indispensável, porque de novo, um europeu poderia estar no seu lugar. Pra isso a empresa tem que prover uma carta super séria descrevendo em detalhes as razões, tipo, quanto tempo a vaga ficou em aberto e ninguém bom suficiente apareceu até "você" aparecer, que você tem cursos X e Y e mestrado nisso e doutorado naquilo outro e por isso e aquilo é o melhor candidato para aquela vaga naquele momento. É um pouco tenso e a empresa tem que ser boa de negociação, porque o governo não dá mole. Mas de novo: vale a pena.

Eu diria que trabalhar aqui na Suíça é normalmente uma atividade justa. Gente to falando de trabalho em bureau, ok, escritório, informática. Sei que injustiça e gente ruim pode haver em qualquer lugar, mas estou falando da minha experiência. Isto é, não tem exploração e apesar de ter sim um climinha competitivo de vez em quando em empresas, oferece uma certa flexibilidade para equilibrar ao máximo a vida no trabalho com a vida pessoal. Aqui na Suíça as pessoas são mais frias e sozinhas, então há um certo incentivo para que o trabalho não seja mais uma causa para uma vida social isolada.

Desde que vim trabalhar aqui que já vi um colega próximo do trabalho cometendo suicídio, que vi duas mulheres se afastando do trabalho em definitivo porque se tornaram mães, que um chefe distante do meu departamento também cometeu suicídio, que outro colega próximo se afastou por problemas psiquiátricos e quatro outros colegas tiveram burn-out. O que me deixa dúvidas porque um ambiente aparentemente tão propício a um ritmo saudável, flexível e bem equilibrado, em três empresas diferentes que trabalhei, vi coisas que nunca havia visto no Brasil, no tempo que trabalhei lá. Seríamos nós brasileiros mais fortes e resistentes, sim porque vivemos e trabalhamos no Brasil sem muitas dessas regalias oferecidas aqui e temos menos casos desastrosos de insucessos no trabalho? Ou seriam os suíços já tão sobrecarregados com os pesos da vida neste país gelado e cheio de índices frios e calculistas bem sucedidos em tudo, mas menos em emoção, relacionamentos, inteligência emocional pra dar conta de tudo...? Sobre a questão da maternidade é um post a parte porque veja nessa matéria por exemplo da The Economist, onde numa lista de 26 países do primeiro mundo, a Suíça é nada menos que o antepenúltimo no ranking dos melhores para uma mulher trabalhar. Juro que ainda vou escrever sobre isso. Preciso.

Mas esse é um assunto que dá uma tese de doutorado, por isso não quero me alongar muito nem sair do foco. Só queria abrir um pouco a cabeça aqui na reflexão para concluir, depois de tudo que disse de bom que é trabalhar aqui, que existe uma nuvem que ronda por aqui, e que nem sempre é assim tudo aparentemente perfeito. Pra mim no momento, é sim, perfeito. Digo isso com orgulho depois de ter conseguido dar a volta por cima, quando não estava (mais uma vez) bom pra mim. Mas no geral eu acho as condições muito boas, é tudo que eu sempre sonhei. E espero que continue assim. Por outro lado é um exercício diário me (nos) policiar para não cair em armadilhas que insistem em aparecer em tudo quanto é lugar, inclusive no trabalho, ou influenciados pelo. É preciso muita, muita cautela, paciência, e principalmente jogo de cintura pra captar como funciona o sistema, pra dançar conforme a música, pra engolir sapo, pra conseguir fazer o seu. Mas uma vez que você começa a entender essas coisas, é só uma questão de tempo até se acostumar, entrar na rotina, passar pela curva de aprendizado inicial e atingir uma constante onde tudo pode ser assim, pleno e justo. Faz parte.

21 novembro 2014

New day, new life!

Quem me segue no Instagram (@elaeamericana_liana) já deve ter percebido as últimas e repetidas hashtags que vim postando nas últimas semanas: #newday #newlife, e depois daí até outras novas como #debemcomavida e #valeapenacompartilharavida. Tudo porque estou numa vibe muito boa. A ausência por aqui no blog já é óbvia e isso é o reflexo do quão corrida minha vida tem sido desde a mudança de Zurique para Berna.

Já contei aqui sobre mais essa mudança na minha vida, a volta para Berna, a mudança de emprego. E desde então, desde o início de outubro quando me mudei que estou aqui com atraso de sono, resolvendo tudo dessa mudança que parece que ainda não acabou e não acaba nunca, mudança de endereço em tudo quanto é órgão suíço, arrumando tudo em casa e ainda com Edi direto nas 2 primeiras semanas até o meio de outubro quando começou a adaptação na nova creche em Berna, fora a preparação psicológica para começar um novo emprego, que comecei há 3 semanas.

Tinha tudo para ser exaustivo. Não vou mentir, é. Aliás está sendo, mas está tudo progredindo tão bem a cada dia que mesmo morta de cansada tô aqui comemorando mais essa mudança, mais essa vitória, mais um dia. Acho que tudo é uma questão de como você encara a vida e as dificuldades que aparecem a sua frente. De que me adianta ficar reclamando? Se tem que fazer em prol de um objetivo maior, então vamos encarar da melhor forma.

Os últimos dias em Zurique foram de stress gradativo como contei aqui, quanto mais caixa eu arrumava, mais coisa aparecia pra empacotar, nossa, parecia que não ia acabar nunca. Se não fosse a ajuda do Eric no final desmontando os móveis não teria conseguido mesmo. Eram dois homens da empresa de mudança que contratei e o caminhão de mudança ficou abarrotado de coisa. No meu planejamento devo ter esquecido que não era mais só eu e agora tenho um berço, mais umas malas de roupas, vários pacotes de fraldas....

No dia da mudança ainda tava a Magali lá novamente dando uma força e ficando com Edi lá enquanto tudo se movimentava. Fomos de carro de Zurique pra Berna enquanto a mudança ia no caminhão. Mas foi só eu chegar em Berna, abrir o apartamento e a mudança começar a ser descarregada que já tinha que voltar pra Zurique pra fazer a entrega do apartamento que ficou sendo limpo por uma equipe lá enquanto vínhamos pra Berna. Tudo assim milimetrado, no último segundo. Sufoco total. Tudo isso pra depois voltar pra Berna já de noitão e encontrar o apartamento novo totalmente carregado de caixas e móveis desmontados. Uma loucura.

Depois daí, era só eu e Edi. O Eric aprontou mais algumas porque ne gente, stress pouco é bobagem. Então eu que já cansei de dar chances ao rapaz, agora fiz questão da ausência dele, porque não tem ser humano que aguente essa palhaçada gente. Justo no momento que eu mais precisava. Mas tudo bem. É sempre assim. Ainda bem que existem amigos que são praticamente família quando se está só, então aqui pude contar com a ajuda e a presença deles, seja no trabalho duro montando armário, cama, estante, seja o que for, seja só pra um encontro pra espairecer, que de "só" não tem nada.

Entre uma coisa e outra, de alguma forma encontrava tempo para ir ali olhar ao redor e me dar conta de onde eu estava.......... de volta a Berna, onde tudo começou há 5 anos atrás!!!!!!
Ô cidade liiiiindaaaaaaaaaa!!!!
E não só me deslumbrar com os cartões postais maravilhosos que tem ao vivo e a cores a cada esquina, mas conhecer a vizinhança, que por sinal é bem melhor que lá em Zurique. Aqui tenho floresta, verde, parque, parquinho pro Edi bem aqui do lado, e ne, agora o que importa é isso. Conhecer os vizinhos, descobrir onde é o mercado mais próximo, as paradas do ônibus e ir me familiarizando com a logística do nosso novo universo a cada dia.

Digo com orgulho: tá tudo funcionando. Apartamento arrumado (ok, quase), creche, babá, contas em dia, desregistro nos órgãos de Zurique, registros nos órgãos de Berna, ufa! Além disso comecei *consegui começar* meu novo trabalho no início de novembro e tá tudo sob controle. Digo também com orgulho que até hoje só falei Alemão lá e chego no büro por volta das 8 horas da manhã, coisa que eu até então nunca tinha feito aqui na Suíça, só chegava depois das 9.

Em paralelo, comprei uma mega bicicleta nova pra mim e Edi que merece um post exclusivo e aproveitamos os dias melhorzinhos pra dar uma volta nela ainda lá fora. Sinto um enorme prazer de cozinhar algum prato, alguma coisa, ficar mesmo na cozinha feito dona de casa, coisa que antes eu não achava graça e pior, nem sabia por onde começava mesmo com a receita na minha frente. Mas isso eu contei nesse post aqui e ainda tenho dúvidas se é efeito da maternidade ou curso natural de acordo com a idade mesmo. Enfim. Eu fico é feliz de poder conseguir equilibrar a vida de casa com a vida profissinal. Juca também vai bem, saímos pelo menos 1x por dia pra passear e fazer as necessidades e o apartamento agora é bem maior que em Zurique, então ele tem muito espaço pra se encostar durante o dia.

Aliás, o apê também, nossa! Quem me viu que me vê. Há 10 anos atrás eu morava em Recife num quarto e sala que no meu quarto tinha uma cama de solteiro e quando abria a porta do armário não dava pra fazer mais nada, passava mais ninguém, nem eu  mesma. E hoje poder afford e provide uma vida confortável pra mim e pro meu filho num apê super bacana aqui que consegui alugar por mim mesma, olha, é uma sensação de orgulho e dever cumprido boa muito grande. Graças a Deus. Agradeço demais por ter conseguido esse emprego novo agora, quando eu realmente precisava, e justamente o que eu queria.
Por falar no trabalho, está indo tudo bem, em breve quero escrever um post sobre como é trabalhar com Informática aqui na Suíça, por conta de todos os emails e mensagens que tenho recebido sobre esse assunto. Aliás, perdão aí pela demora em responder se voce me mandou uma mensagem, ultimamente tem sido punk. Minhas olheiras estão mais que nunca precisando dos melhores corretivos do mercado.

Tenho trabalhado até agora ajudando em um projeto que já está em andamento com automação de testes, mas devo entrar num projeto a longo prazo na próxima semana. Meu time é quase todo suíço, com exceção de dois austríacos que moram aqui há vários anos, mas não falam suíço-alemão e uns alemães que sempre tem. Aliás! Parênteses aqui! Lembram que eu não suportava ouvir o berndeutsch, o dialeto aqui de Berna? Pois não é que agora estou até simpatizando com ele? Hahahahaha! É sério. Meu chefão disse que é só uma questão de tempo, que vão continuar falando em suíço alemão nas reuniões e eu vou pegando aos poucos. E ele parece que tá certo.. Comigo falam hochdeutsch, o alemão clássico, mas às vezes eles mesmo esquecem, passam pro suíço alemão e quando vejo to eu lá fazendo careta pra entender. Mas vai entrando, gente, vai entrando, já não soa tão horrível quanto há 5 anos atrás. E o meu sotaque também, percebo o quanto mudou (pra suíço) quando falo com os alemães que também tem por lá. O time é legal, tem vários projetos que parecem legais também, o ambiente é legal, e tenho a sensação que o clima é mais leve do que em Zurique. Pelo menos por enquanto, vamos ver se continua assim. Espero que sim.

Quando chego em casa que pego Edi na creche ainda vou dar janta, banho, brincar, arrumar uma coisa aqui e ali, e quando vejo to botando Edi na cama às 20, 20:30 e aí é que vou tomar banho e respirar um pouco. Não dura muito, umas 22h já to dormindo. Senão não consigo acordar às 6 pra tomar banho, me arrumar, arrumar Edi, tomar café, preparar tudo e sair pra estar as 8 no trabalho. Quando Edi fica em casa com a babá é mais relax pra mim porque chego em casa e já o encontro de banho tomado, casa limpa, tudo no lugar, então tem um balanço legal que me permite mais sanidade mental pra dar conta da jornada dupla.

Olha, não é fácil. Fácil não é mesmo não. Mas é tão gratificante. Me sinto tão mas tão útil dando conta de casa e do trabalho. Ainda mais trabalhando 80%, tendo as sextas-feiras livre, ave maria, vale a pena demais. Conseguir dar continuidade a minha carreira que tanto me dediquei, batalhei, estudei, e ainda ter 3 dias na semana pra equilibrar com a vida pessoal, social, de mãe. Diria que quanto a isso estou no paraíso, se melhorar estraga.

E por isso tudo, o meu bom humor, a minha vibe boa de bem com a vida, o meu sorriso no rosto, a minha alegria de viver e de poder experienciar (existe essa palavra? é erleben em Alemão) essas oportunidades que me aparecem.

Pra fechar com um pouco mais de reflexão, que é o que realmente importa dessa vida... A vida não é fácil. Seja qual for o seu caso, a sua situação. Mas é preciso saber vive-la, saber tirar o que há de melhor, tirar o que não te faz bem. Passar pelas dificuldades da melhor maneira possível, porque elas vão estar lá, são inevitáveis. Se vão haver marcas no final, sem dúvida. Serão as marcas da vitória, da conquista, ou senão das tentativas, que nos tornam mais fortes, mais experientes, mais sábios, mais honestos. Que nos fazem enxergar o que realmente importa. O que é que importa nessa vida. O que importa não são coisas, negócios, materiais. São os sentimentos, as sensações, as conquistas depois de um longo longo caminho, as vitórias depois de uma dura luta. É essa a essência. Não importa se estás na Suíça ou no Pantanal, na Tailândia ou na África, a sua vida é você quem constroi, é você quem determina se vai vive-la de bem, ou não. O que voce permitir. É tudo uma questão de escolha, de eternos e contínuos desafios e exercícios e tentativas de nos tornamos melhores, de atingir nossos objetivos, nossos sonhos mais secretos, nossas necessidades, o que de fato nos faz bem e o que nos realiza.

Por isso, hoje, amanhã... todo dia será um novo dia, uma nova vida. Uma nova oportunidade, uma nova chance. Vamos aproveita-la! 
It's a new dawn, it's a new day, it's a new life for me. And I'm feeling good!