31 janeiro 2013

Gravidez na Suiça

Desde que fiquei grávida, já ouvi de vários lados uns pedidos pra esclarecer como é a gravidez, o prenatal e todo o acompanhamento dessa fase na vida uma mulher aqui na Suiça.

Apesar de já ter comentado uma ou outra coisa no post dos primeiros três meses ou do segundo trimestre, ou aquele que falei que as roupas não cabiam mais, como foi pra contar no trabalho, e que disse que era um menino e etc e tal, os posts são sempre bem pessoais e contando mesmo minha experiência, minhas reações, enfim é o meu relato. Agora, que a coisa está ficando mais clara, estou chegando na reta final e estou entendendo melhor como é o esquema de acompanhamento da gravidez (parto ainda não ne, que ainda to me informando e me preparando, mas da gravidez já dá pra falar), resolvi então resumir tudo num post só. Então vamos lá, ver se eu aprendi a lição direitinho.


O início
Bom, o início acho que deixei bem claro mesmo no primeiro post quando anunciei que tava grávida aqui. Em suma é assim: desconfiou? Faça o teste. Deu positivo? Marque a primeira consulta do seu pre natal. Ponto. Não tem exame de sangue, segundo exame de urina, nada pra confirmar. Se voce chegar no hospital, vão fazer o mesmo teste de farmácia. Então se o exame de farmácia deu positivo, ligue pro seu médico ou pra Frauenklinik (clínica de mulheres) da sua cidade (normalmente pertence ao hospital principal da cidade. Aqui em Zürich, é o Hospital da Universidade ETH). Aliás, me enganei, pra marcar o seu pre natal não, primeiro decida se quer continuar a gravidez ou não. É, aqui na Suiça aborto é legalizado e quando voce ligar pra Frauenklinik vão te perguntar se voce vai continuar a gravidez ou não. Se sim, voce é encaminhado pro departamento de Ajuda ao Parto (Geburtshilfe) aonde, agora sim, vai fazer o seu pre natal. Ou então, faz o pre natal todo mesmo com o seu médico ginecologista/obstetra. Se não quiser continuar com a gravidez, vão tomar as providências para agilizar o aborto.


Consultas
Bom, eu fiz (estou fazendo) o acompanhamento no hospital da Universidade, que é onde meu bebe vai nascer. É a policlínica então os médicos são um grupo de pessoas que estão de serviço em dias diferentes, então nem sempre toda consulta é necessariamente com o mesmo médico. No meu caso, o que eu fiz foi quando simpatizei com a médica que me atendeu a primeira vez, só marquei consulta no dia que ela estava, assim ela sempre me atende. As consultas com a médica são descomplicadas. Ela esclarece minhas dúvidas, me examina dependendo da semana que estou, prescreve vitaminas, controla peso, conversa. Voce recebe um cartão de consultas e a cada 4 semanas tem uma nova consulta.

Recepção da Policlinica
Na primeira consulta, normalmente com 8 semanas de gravidez, a conversa é beem longa, muita coisa a ser esclarecida, a médica te dá vários livrinhos sobre a gravidez, amamentação, etc. E voce recebe também o Mutterpass, que é um pen drive ainda com mais informações (em vários idiomas) e onde a cada consulta são salvas novas informações e também as fotos das ultras que voce leva pra casa.

A policlinica inicia o expediente cedo e fecha cedo também. Nunca fiz consulta a tarde e uma vez quando liguei lá as 16h já estava fechado. As consultas normalmente são pela manhã e sempre começam com exame de urina, pressão e verificação do peso com uma enfermeira numa sala só para paciente. Depois, volto pra sala de espera e sou chamada novamente pra ser atendida pela médica, ou pela médica da ultrasom em dias de ultrasom, e depois que vou pra médica.

Eu não tenho com o que comparar porque nunca fiquei grávida no Brasil e nunca fiz pre natal lá, mas apesar de aqui ser tudo bem organizado, já tive algumas pequenas coisas que não gostei lá na policlinica, como muito tempo de espera, ultra marcada numa consulta e teve de ser remarcada porque estava overbooked, mas foram poucas vezes e poucas coisas. No geral, o atendimento é muito bom, as consultas são demoradas, atenciosas e todo o protocolo parece ser seguido muito bem.



Vitaminas
Grávidas ficam mais debilitadas em seu organismo e precisam de suplementos. Formar um bebe dentro de voce "suga" muitos nutrientes que precisam muitas vezes ser recompostos além da alimentação normal. Ferro, calcio, pode esperar que é normal precisar tomar vitaminas na gravidez.

Inicialmente me foi recomendado pela médica tomar um composto de vitaminas com ácido fólico importante para o desenvolvimento do cérebro do bebe. A caixinha de Elevit vem com 100 tabletes e tomo um todo santo dia.

Depois do exame de glicose na 27a semana, foi identificada uma pequena baixa na minha taxa de ferro e aí me foi passado mais um medicamento pra tomar todo dia também pra ajudar a levantar o ferro. Mais pra frente falo melhor do plano de saúde, mas o plano normalmente cobre os remédios comprados na farmácia. Neste caso das vitaminas, não cobre o Elevit, mas cobre o do ferro. Assim, na farmácia mesmo imprimem uma etiqueta com os dados da pessoa e ainda a frequencia que se deve ser tomada colada na caixa.




Ultrasom
A médica que faz a ultrasom não é a mesma que te examina. A sala da ultrasom é uma só, é super disputada e normalmente é uma médica só pra fazer ultrasom e uma assistente na sala. Todos dizem que o plano cobre 3 sessões de ultrasom, mas lá no hospital fazem 4, sem custo a mais pro paciente. Ultra normal 2D e 3D incluídas. Isso eu sei que não é como no Brasil que o plano não cobre a ultra 3D. Aqui cobre.

A primeira ultra é a transvaginal na primeira consulta com 8 semanas, quando só dá pra ver um pontinho de nada mas já dá pra ver o coração batendo, e mesmo assim é emocionante.

Na 12a semana, tem mais uma ultra e tem também a primeira Ultra 3D, mas o feto ainda é muito novo e não tem cara de humano. Não é bonito e não vale a pena fazer ultra 3D tão cedo.

Depois com 20 semanas, é quando normalmente se faz a ultra morfológica, na metade da gestação quando o bebe é grande e formado o suficiente pra ter seus órgãos e membros medidos. É normalmente aí que se descobre o sexo. Sim, o sexo do bebe é descoberto na ultra. Aqui não tem exame de sangue pra descobrir sexo, e muitas suiças nem querem saber o sexo antes do bebe nascer. É comum deixar pra ter a surpresa na hora do parto.

E depois, mais pro final da gravidez, com 30 semanas, é feita a última ultrasom, quando o bebe já pode estar virado de cabeça pra baixo e aí pode ser mais difícil ver a carinha dele.



Plano de saúde
A história do plano de saúde é um assunto longo e chato aqui na Suiça. Como tem gente que gosta de passar horas discutindo as várias possibilidades de planos, combinações, diferenças de preços entre cidades, etc. Eu não sou uma delas. Bem, aqui na Suiça, não existe sistema de saúde público. Todo mundo tem que ter plano de saúde, eu disse TODO MUNDO. Não é barato e desde que eu mudei de emprego que tive que pagar o meu (pois antes estava coberto pelo meu outro emprego), que todo mês reclamo quando chega a conta. Dá dó pagar quando voce não está usando. Agora que estou usando pago com gosto e não reclamo mais.

Em suma, os valores dependem de vários pontos: primeiro, a franquia. Se voce tem franquia de 300 francos por exemplo, o valor que voce vai pagar por mês vai ser mais alto do que uma pessoa que tem uma franquia de 1000 francos. Porem, se voce precisar fazer um tratamento que custa 800 francos por exemplo, vai pagar os primeiros 300 francos e os outros 500 são cobertos pelo plano. Isso voce continua pagando a mensalidade, claro. Já a pessoa que tem a franquia de 1000 francos, se precisar passar por um tratamento de 800 francos, vai ter que pagar a mensalidade (menor que a sua, pois a sua franquia é mais baixa), mas em compensação terá que pagar todos os 800 francos do tratamento, pois ainda não atingiu a franquia mínima do seu plano escolhido, entendeu? Quanto maior a franquia, menor o custo mensal. Vale se voce souber que não vai precisar usar, mas quem sabe ne? O meu é o da franquia de 300 francos, o valor que pago por mês é alto, mas pelo menos agora só pago os primeiros 300 francos do pre natal (incluindo remedio, consulta, qualquer coisa) e o resto todo é coberto pelo plano. E olha, não é barato. As consultas aqui são cobradas pelo tempo mínimo. Digamos que o normal de uma consulta é meia hora. Ok. Cada 5 minutos a mais que voce passar no consultório, é cobrado a mais, e, de novo: não é barato. Ah, e a história da franquia é por ano. Vira o ano, zera tudo e voce precisa pagar a franquia mínima de novo se usar.

Outra coisa, o valor da mensalidade varia por cantão. A mensalidade do mesmo plano é mais cara em Berna do que em Zurique.

Normalmente tratamento odontológico não está incluído no plano básico, também é preciso incluir, e aí bote mais uns 30 francos por mês.

Há também diferentes tipos de plano como Privat, Halbprivat (meio privado) e Allgemein (generico), que é como se fosse enfermaria e especial no Brasil, eu acho. Não sei direito a diferença entre Privat e Halbprivat, mas normalmente aqui todo mundo é Allgemein porque o Allgemein já é bem caro e é o mais barato dos três. No entanto, se voce precisar ser internado por exemplo e tiver plano Allgemein, voce não vai ficar num quarto só pra voce, vai dividir com outras pessoas. Já se tiver Privat, o quarto é seu. A cobertura também é mais extensa, mas normalmente no Allgemein voce já é bem coberto na Suiça inteira, Europa, e mais internacionalmente vai depender, as vezes é preciso pagar uma taxa extra dependendo do lugar. Também em alguns planos dependendo se voce tem Privat ou Allgemein voce só pode ser atendido por uma certa lista de médicos, mas eu mesma nunca tive problema com isso.
Sala de atendimento de emergência

Em emergências também tudo está coberto. Eu quando tive minha crise nos rins fui tantas vezes a noite ao hospital de emergência e tudo foi coberto pelo plano, amem. E na emergência, fazem tudo quanto é exame, até uma ultrasom extra é coberta. E tem até chazinho, comidinha...


Tipos e locais de parto
Aqui na Suiça a questão do parto é encarada bem diferentemente do Brasil. Aqui se voce não tiver nenhuma complicação, nenhum risco, nada, seu parto provavelmente será normal. Desde a primeira consulta, a médica já vem com um papo encorajador de que é uma experiência necessária para a mulher se sentir mãe, embora eu pessoalmente não ache que ninguém é mais mãe porque teve um parto normal do que uma outra que teve cesárea, mas aí já é outra discussão. Tudo isso é pra dar forças e tirar o medo da grávida de passar pelo parto normal. Há meios para minimizar a dor como a PDA (epidural), a anestesia durante as contrações, mas só durante as contrações! Que fique claro que a comunidade aqui gosta de dizer que se a mulher tiver com a epidural na hora H, não saberá como fazer força direito, então a epidural até é aplicada (se for pedida), mas na hora de empurrar, vão fazer com que voce não esteja anestesiada pra sentir realmente a necessidade de PUSH! Oh, god...

Uma parteira uma vez disse que a PDA era para mulheres "intolerantes a dor".... .......... fácil falar deve ser ne. Vamos ver, vamos ver...

Onde ter seu filho? Aqui na Suiça é bem comum ter filhos em Geburtshaus, que são casas de parto, só com parteiras (Hebamme), onde todo o trabalho é levado de maneira bem tradicional, sem pressa, sem anestesia. Eu até simpatizo com essas casas de parto, mas o problema é que se acontecer alguma emergência, não ter uma UTI ou um médico por perto pode ser crucial. Então prefiro a outra opção: ter meu filho no hospital mesmo que é equipado o suficiente e capaz de atender a qualquer urgência de última hora.

No próprio hospital, as salas de parto são enormes com banheiras, cordas, bolas, todos os artefatos pra ajudar na hora das contrações e voce pode passar horas e horas ali até a hora H de fato. Então pra mim não faz muita diferença da casa de parto, até porque no parto normal, mesmo no hospital, quem faz o parto é a parteira, e não o médico. E, sim, já respondendo sua dúvida, a médica que acompanha voce no pre natal não faz seu parto.

Na hora de ir pro hospital, é só se dirigir ao Gebärabteilung, que é o departamento de nascimento mesmo, a maternidade em si, e aí as Hebammes vão tomar conta de voce. Nada de contato previo, afinidades antes vistas, a pessoa que vai te ajudar a parir provavelmente será uma desconhecida, o que aqui na Suiça é totalmente normal, afinal ela é uma profissional 100% confiável e não há problema nenhum com isso.

Noite da Informação sobre o parto
Apesar de não ter tido meu pequeno ainda, a gente aprende muito durante a gravidez com as consultas, na preparação, conversando com pessoas e lendo revistas e sites. Além disso, os hospitais oferecem uma vez por mês a "Noite da Informação", ou a Informationsabend, onde os futuros pais vão lá num auditório ouvir uma espécie de palestra da chefe da maternidade e parteiras todas as informações importantes e necessárias que todos querem saber. Como é o quarto? Quando é a hora de uma PDA? Parto na água? A apresentação tem bastante foto e as pessoas fazem várias perguntas, então foi uma ótima ajuda ter participado.


Parteiras
Ou Midwife, em Inglês. Hebamme, em Alemão. Uma profissão muito nobre e reconhecida aqui na Suiça. As parteiras dominam a maternidade, uma vez que a maternidade é dominada por partos normais, e partos normais não são feitos por médicos e sim por parteiras. A não ser que haja uma necessidade, uma complicação, aí sim o médico de plantão é chamado no quarto, mas senão, a parteira é capaz de dar conta do recado. Ou mais de uma.

Depois do parto, elas são essenciais na Wochenbett que é o confinamento no hospital depois do parto antes de ir pra casa. São elas que vão ajudar a nova mãe a trocar uma fralda, a amamentar, a dar banho. E depois que voce for pra casa, tem direito a uma visita da parteira na sua casa por dia até 10 dias depois do parto, coberto pelo plano, que é quando ela vai vendo se está tudo bem com o bebe, se ganhou peso, se perdeu. E voce precisa achar e agendar uma parteira pra cuidar de voce em casa depois do parto com antecedência, porque elas são muito requisitadas.


Prioridades
Aqui na Suiça grávida não tem prioridade pra nada. Filas, ônibus, tram. Aqui só se levantam pra ceder o lugar pra pessoas idosas e olhe lá. Para grávidas não é o caso. Grávidas são tratadas igualmente como qualquer outra pessoa. Apesar da visão da barriga "incomodando" os outros, são poucos os que se sensibilizam de diminuir o passo pra voce acompanhar ou oferecer ajuda.


Cursos preparatórios
O hospital da universidade oferece vários cursos preparatórios em vários aspectos da gravidez. Tem curso preparatório pro parto, curso para maneiras com o bebe (trocar fralda, dar banho, etc), ginastica para grávidas, yoga para grávidas. Todos são pagos, com exceção da ginástica que é do governo, embora o plano de saúde cubra parte de alguns.


Bem, com certeza deixei de falar muita coisa até porque não sei muita coisa, sou mamãe de primeira viagem, mas acho que por ora está de bom tamanho. Agora nas minhas últimas semanas vou juntando mais informações pra depois registrar por aqui, assim como depois escrevo também sobre licença maternidade, creches e tudo o mais.

29 janeiro 2013

Passeio de barco pelo lago Zürich

O lago Zürich fica na parte sudeste da cidade e faz fronteira com os cantões Schwyz e St. Gallen. Com os seus quase 90km de extensão, a parte que fica em Zürich que vem do rio Linth e vira rio Limmat tem 35km até se encontrar com o rio Aare.
O lago e a área que o rodeia é um dos principais - senão o principal - cartão postal cidade. Nada mais "zürcher" que ir dar uma volta no lago, de um lado ou de outro, pra relaxar, pra passar o tempo, com o cachorro, com o namorado, sozinho, sentar num banco na beirada pra ler um livro num dia de sol, ou dar comida aos cisnes e patos que ficam nas proximidades. Os passeios no lago Zürich são sempre muito agradáveis.
Mas outro passeio que é bem tradicional e ainda turístico é o passeio de barco pelo lago Zürich. Há diferentes tipos de passeios: longos, curtos, de dia, de noite, os detalhes voce acha aqui.
O passeio curto dura 1.5h e o longo 4h e vai até Rapperswil, disponível todos os dias, várias vezes ao dia (normalmente a cada uma hora e meia). Durante o verão, os barcos são lotados e as filas também são longas. Mas é agradabilíssimo um passeio pelo lago com uma senhora vista num dia de verão na Suiça. No inverno também há passeios mas são menos populares.

O passeio sempre começa na Bürkliplatz que é a praça no final (ou início, dependendo do ponto de referência) da Bahnhofstrasse, aquela rua que a gente já conhece ne - e vai fazendo várias paradas em estações que são bairros mais afastados do centro de Zurique, até dar meia volta e deixar voce no mesmo lugar de onde partiu.

Voce pode descer também em uma das paradas e curtir o lago Zürich de um outro ângulo.

O valor do passeio é 8.40 francos suíços para adultos e metade (4.20 francos) para crianças. Quem tem o passe de trem (o abonamento) válido na Suiça pode andar sem pagar nada a mais, é só mostrar o passe.

O barco é meio que uma balsa, voce vai sentado em bancos ou cadeiras com mesas no interior do barco onde tem um bar com lanches e bebidas disponíveis pra quem quiser.
Existe também os passeios "Dreamboat" que são os que acontecem em datas especiais como o 1o de Agosto que é o dia nacional da Suíça, o "BBQ Cruise", que acontece toda quinta desde 4 de Julho até 29 de Agosto, com exceção de 1o de Agosto, o Cruzeiro do Fondue, o Cruzeiro Salsa, enfim, vários eventos programados especialmente e normalmente no verão que são bem interessantes. A lista completa dos eventos especiais voce pode achar aqui.
Eu fiz o passeio num dos poucos dias de sol de outono do ano passado quando as cores das paisagens estavam bem salientes, e foi muito legal. O dia estava claro, então podíamos ver os alpes ao fundo e conhecer os pontos mais afastados da cidade de outro ângulo, e, é claro, tirar ótimas fotos.

28 janeiro 2013

Regras e etiqueta da Suiça

A organização suiça é um dos principais temas que fazem pessoas chegarem a este blog. A curiosidade de como é morar na Suiça, como são os suiços, como é o dia a dia e como eles se comportam, quais são as regras. Como disse no post anterior, peço desculpas por não conseguir responder a todos os emails e pedi encarecidamente que usem o bom senso na hora de mandar seu email, embora eu saiba que por falar tanto aqui no blog, termino abrindo espaço pra isso, então tá, vamos lidando com isso como dá. Mas aí pensei que poderia escrever outro post falando mais do que aprendi e vi aqui sobre este assunto.

Este post aqui é um dos mais acessados deste blog, então de uma lida lá também pra ter mais noção de como são as coisas por aqui. Lá falei da organização suiça, de uma forma mais geral, de regras que seguidas fazem uma ideia do comportamento do povo daqui e tudo mais. No entanto, que regras são essas? Além de regras de atravessar a rua na faixa e respeito e agendar coisas com antecedência, há centenas de outros aspectos que eu não conseguiria enumerar tudo em um post só. Até porque eu talvez nem conheça tudo.

E também morando aqui, depois de um tempo voce termina acostumando e termina sendo normal pra voce algumas coisas. Tentei então enumerar algumas que fazem parte do costume e da cultura daqui pra dar mais uma noção do perfil do lugar.

Bom, pra começar, nos prédios aqui não há porteiro. É, não tem.  Os prédios não tem grade, nem portaria, como falei aqui. Na porta principal, tem as caixinhas de correio com o nome de cada um onde é posta sua correspondência, um botão que é o interfone que toca direto no seu apartamento e só. Os moradores têm a chave da porta do prédio e são eles mesmo que abrem a porta para visitas ou qualquer pessoa. Não tem segurança de plantão, não tem nada, não precisa. Mas sempre há um cartaz da administração do prédio na entrada com as regras do prédio.

Não pode ouvir música alta depois das 10 da noite. Deve-se cumprimentar os vizinhos. Abrir as janelas do apartamento por algum tempo para trocar o ar. Não brincar nem fazer barulho nas escadas. Deixar a lavandeira limpa e organizada. Colocar o lixo lá fora direito. Assim alguns lembretes para a boa convivência e o bom andamento do dia a dia no prédio. Normal.

Sair na rua e cumprimentar desconhecidos não é normal, a não ser que voce (como eu) esteja passeando com o cachorro e encantar quem está cruzando por voce. Sempre vão parar pra brincar ou rir para Juca e dizer um "Grüezi" pra mim. Se tiver com outro cachorro então, aí pára, deixa cheirar, pergunta se é macho ou fêmea ou quantos anos tem e pronto. "Ade" e continue seu caminho.

Eu sempre ando com Juca na coleira, porque ele fica simplesmente empolgado demais nos passeios e é sem noção suficiente de ir pro meio da rua. Não é treinado e (tão) educado robótico como os cachorros daqui que mesmo sem coleira andam do lado do dono e obedecem a cada comando. Não, Juca definitivamente não é assim. Ele obedece, mas ele quer mais é brincar, cheirar o chão, comer a grama, e minha voz é a última coisa que ele dá atenção num passeio. Tem que andar na coleira.

Embora eu tenha pra mim que mesmo que Juca fosse sim adestrado eu ainda não andaria com ele solto, pois cachorro é bicho e não dá pra confiar 100%. E se ele atacar uma criança? E se ver outro cachorro e sair correndo? Sei lá, não confio. Portanto não curto quando to andando e aparece aquele cachorrão enorme solto querendo cheirar Juca e eu fico sem saber o que fazer, porque sei la, vai que se eu pegar Juca o cachorro pula em cima de mim? Não gosto mesmo. Aí aparece o dono lá longe chamando o cachorrão, que depois de umas três ou quatro chamadas é que atende. E se fosse uma criança pequena que tem fobia de cachorro? Em parques muitas vezes há placas e sinalizações avisando que ali naquele espaço o cachorro (não importa o tamanho) tem que estar na coleira! Exatamente pra evitar essas coisas.

Apesar de praticamente todo mundo apanhar o coco do cachorro com os saquinhos espalhados em lixeiras e jogar o coco no lixo, em muitos parques também há um lembrete de não deixar o cachorro fazer coco na grama, pois é área de crianças brincarem ou coisa do tipo. E tem que respeitar. Aliás, aqui no blog já fiz um post sobre essa questão do lixo que é muito levada a sério.

Nesses mesmos parques, as vezes há outras placas avisando de outras regras como jogar lixo no lixo, conversar com outras pessoas, prestar atenção nos seus pertences, não ouvir música alta, não fazer fogo e não fumar. Além, claro, de informações de abertura do parque, pausa, e prioridades (estudantes, crianças, pessoas da comunidade e esportistas). Isso é para "afastar" os sem noção que de vez em quando aparecem "acampando" em algum lugar.

Além de uns lembretes de o que é proibido como uso do parque na madrugada, e ainda avisando da possível multa em caso de mau uso no valor simbólico de mil francos.

Como voce ve ai na foto, a placa de "Verbot" ("Proibido") está pixada e essas coisas ainda são muito criticadas, do que pode, do que não pode, embora ainda seja seguida bem a risca por quase todo mundo.

Criticado porque assim voce está determinando como uma pessoa deve se comportar e isso ainda não é totalmente aceito - se é que um dia vai ser.

Aqui na Suiça há um alto índice de suicídio. Regras e proibições terminam determinando como uma pessoa deve se comportar no país quando está fora de casa, e claro que nem sempre se aplica a todos. Aos que não se encaixam nas regras, terminam se isolando e podem tornar-se "problema" pro país. Mas isso já é outro assunto.

Enquanto a smalltalk suiça é uma arte, pois vai além de saudações entre vizinhos, usar "du" ou "Sie" pra tratar uma pessoa na formalidade ou não é tão normal que pra passar disso deveria existir um manual pras diferentes situações. Mesmo que voce frequente o mesmo consultório odontológico por anos, a secretária lá vai sempre lhe tratar na formalidade. Nada de perguntar como foi o fim de semana, ou usar "du" porque voce está ali como cliente e ela está trabalhando. Passar daí, amigo, é uma arte. A moça com quem voce negocia o apartamento há um tempão também vai continuar lhe chamando de Frau ou Herr e o seu sobrenome. Leva um tempo pra se acostumar. E mesmo que voce tenha passado de Sie para du com o seu vizinho não significa que a smalltalk vai avançar muito. Voces podem até ser da mesma idade mas podem continuar só na conversa de elevador, comentários sobre o clima e saudações usuais do dia a dia.

Convidar pessoas pela primeira vez pra ir a sua casa é um grande passo. Se voce tá nessa de ser informal com seu vizinho mas não passa de conversas sobre o clima, é um graaaande risco. Abrir sua casa, sua intimidade, seu canto, pode ser um sinal de que voce está aberto a amizade e simpatiza com a pessoa, mas por outro lado pode parecer muita abertura e os suiços podem achar esquisito. Oferecer um apero é de praxe. Apero que eu tanto já falei aqui no blog é um happy hour, uns drinks com uns aperitivos, sem muita formalidade de jantar e mesa pronta, é a oportunidade para socializar mais. Apero = socializing. A regra é essa. Muitas vezes dá certo e é normalmente bem agradável, eu adoro ser chamada pra um.

Já marcar de sair com alguém é um passo muuuuito mais além. Primeiro: sair pra onde? Com mais alguem? Quem? Se for gente do trabalho, tá tudo certo. Mas seja com quem for, regras de comportamento e smalltalks também valem a pena ser lembradas. Nada de abrir sua vida pessoal pra quem voce conhece há pouco tempo só porque estão saindo juntas, ou juntos. O melhor é ir devagar, curtindo o momento, a comida, ou a bebida, sem stress nem muita ansiedade. Suiços não são de fazer farra até tardão da noite, e dependendo da cidade não tem nem opção de embalar um bar numa discoteca por exemplo. Tudo começa cedo, e é tudo muito organizado. Ah, e não esqueça de deixar sua gorjeta no final ao dividir a conta.

A não ser que a outra pessoa se ofereça a convidar voce e pagar a conta, a regra é sempre dividir a conta no meio. Não importa se voce bebeu um drink a mais que a outra pessoa ou se ela comeu mais que voce, o mais educado é dividir no meio mesmo e deixar uma gorjeta razoável pra quem lhe atendeu.

Enfim, são tantas e tantas regrinhas e coisinhas que existem no dia a dia que não dá pra enumerar tudo aqui. De tomar chá com o fondue, andar no tram com bilhete mesmo sem ninguem pedir a ficar parado do lado direito da escada rolante e deixar o esquerdo livre pra quem quiser passar, são coisas que não estão escrito em nenhum manual, se aprende com a convivência e com o tempo.

Mas bem, embora não haja manual, muitas dessas impressões e regras estão muito bem escritas em um livro que li recentemente, o "Swiss Watching", de Diccon Bewes. Diccon é britânico, mora em Berna há vários anos e descreveu costumes e curiosidades sobre a Suiça muito muito bem neste livro. Ele faz várias comparações dos suiços com os britânicos que é de onde ele vem ne, então nem tudo se aplica a quem tá lendo e nem sempre vai se entender todos os trocadilhos que ele faz, mas é uma ótima leitura. Voce se ve em várias situações já passadas, reconhece cenários que ele descreve, é muito interessante. Eu o vi uma vez na livraria Stauffacher em Berna onde ele trabalha, ele está normalmente na área de livros em Inglês no 2o andar dando dicas e sugestões de livros, mas o meu exemplar era no Kindle e eu não pude pedir um autografo hahahaha. Quem tiver a chance e a curiosidade, vale a pena. Já é um começo.

12 janeiro 2013

Limmatquai

O centro antigo de Zurique tem o rio Limmat como referência. O rio Limmat é a continuação do rio Linth que vem dos alpes e a partir do ponto que desembarca no lago Zurique vira Limmat, que corre por 35km até se encontrar com o rio Aare, bem conhecido pra quem mora em Berna.
O centro antigo de Zurique fica então dos dois lados do rio Limmat. No centro da cidade, saindo do lago em direção a estação central (Hauptbahnhof). De um lado, ruas medievais que quase fazem esquecer o ritmo e a fama de bancos e capital financeira da Suiça. Ruas de pedestres, lojas instaladas no meio de sobe e desce quase labirinto, instituições culturais e religiosas.
O labirinto de ruas de pedestre tem um fim e se conecta com a Bahnhofstrasse, a rua de compras mais conhecida do país, pode-se dizer. Tanto nas ruas de pedestres quanto na Banhofstrasse, fazer compras ali é para quem está disposto a gastar, com algumas poucas exceções de lojas. De medieval, o centro se tornou mesmo capitalista e o aluguel de um espaço ali está entre os mais caros do mundo. Mas não doi dar uma volta e conhecer os arredores ne. Afinal diante de lojas de marcas caras, ainda se encontra fontes e tudo tão bem organizadinho, e a arquitetura ainda é tão interessante que vale a pena.
Também não é de tudo caro e luxo em Zurique. A famosa Fraumünster, igreja fundada em 853, é cartão postal da cidade. A praça Münsterhof beirando o rio Limmat é o lugar ideal e fundamental para turistas tirarem fotos visando a tal igreja. A ponte Münsterbrücke (Cloister Bridge, em Inglês) que a liga a Münsterhof ao outro lado do rio Limmat está sempre movimentada.
"Quai" de Limmatquai é um termo suiço que significa cais, desembarcadouro. Então a Limmatquai é toda a área que vai ao longo do rio Limmat. Como disse antes, de um lado, as ruas medievais e a Bahnhofstrasse. E de outro, o outro lado da moeda. ruas que passam carros mas ainda sim é possível caminhar tanto ao longo do rio Limmat ou do outro lado ainda vendo o rio mas de vez em quando dando uma olhada nas lojas e cafés.
O lado esquerdo da Limmatquai pode ser explorado tanto vindo do lago Zurique até a Bahnhof, apenas indo do outro lado senão as ruas de pedestre que falei acima, ou pode ser alcançada atravessando a ponte da Fraumünster na Münsterhof, ou pra quem começar a andança da Bahnhof, é só não ir direito à Bahnhofstrasse, e sim, atravessar a ponte Bahnhofbrücke - onde tem um Coop enoorme) e começar andando dali descendo a Limmatquai com o rio Limmat a sua direita atééé chegar no lago.
É uma caminhada boa, mas é tão bonita a vista para a Fraumünster dali e todo o centro de Zurique, que depois nem se nota o tanto que se andou. Esse lado da Limmatquai é diferente do outro porque além de lojas (e vale salientar, são lojas mais "normais" e não tão de grife, apesar de ainda ter sim lojas caras ali), há vários cafés, bares e restaurantes espalhados, o que não se ve muito do outro lado.

Se voce vai andar no centro de Zurique num dia de sol e pretende dar uma parada na caminhada pela Limmatquai para tomar um vinho, sentar no sol e admirar os arredores, então voce tem que ir desse lado da Limmatquai, que pra sua sorte, se chama oficialmente "Limmatquai". O outro lado como tem muita rua embaralhada na outra, termina cada rua tendo um nome.
Clique para ver grande
Andando pela Limmatquai, voce ve a prefeitura (Rathaus), a Helmaus (uma igreja com um centro de convenções), e ainda se depara com a Grossmünster, a catedral protestante de Zurique e mais um famoso cartão postal da cidade. A igreja foi erguida no século 13 onde antes era um cemitério romano. Ali tem um pequeno museu e subindo a pequena colina onde ela fica, é possível ter uma ótima vista da cidade e da Limmatquai.
O que eu ainda não disse e ainda não vou explorar neste post é que andando na Limmatquai, a cada cruzamento, há uma possibilidade de subir ruas e explorar ainda mais o que antigamente também era o centro medieval da cidade. Niederdof, Oberdof, ali por cima há ainda várias ruazinhas interessantes que com tempo sobrando, vale também a pena dar uma volta.

Pra quem ainda quer ver a Limmatquai mas não quer andar tudo, os trams 4 e 15 andam ao longo dela, com paradas na Helmhaus, Rathaus e Rudolf-Brun-Brücke, pontos estratégios para a foto!

Até 2004 a Limmatquai era apenas para pedestres, mas foi liberadas para trams e carros, o que a torna muito movimentada hoje em dia, na minha opinião. A pé ou de tram, sem dúvida um passeio imperdível para quem visita Zurique.

10 janeiro 2013

Ano velho, ano novo

Sempre fui de fazer muuuitos e muuitos planos. Como de costume, tinha muitos para 2012. Minha mudança para Zurique, minha promoção no trabalho, mais viagens e mais experiências aqui no meu 3o ano de Suiça.

Uns planos deram certo, outros não. Dentre estresses normais do dia a dia, viagens, reencontros com amigos e saudade da família, 2012 foi sem dúvida um ano muito marcante na minha vida. Pelos planos não, pelas surpresas.

Começei o ano na companhia da minha mãe no frio da Noruega. O início do ano já é frio pacas na Suiça e eu ainda fui atrás de mais.
Passeamos, fomos a Milão, a Paris novamente, matei um pouco da saudade, e depois que ela foi embora procurei coisa pra fazer pra não desabar de saudade de novo. Fui a montanha, chegou Fevereiro e o carnaval, voltei a me reencontrar com pessoas que ficariam definitivamente na minha vida, trabalhei muito, passeei muito, viajei muito, fiz de tudo um pouco.

No primeiro semestre, conheci países interessantíssimos como a Macedônia, a Albânia, a Ucrânia, 2012 parecia ser o ano que eu ia me dedicar a explorar coisas menos conhecidas... embora meu desafio maior parecesse era ser a mudança pra Zurique, encontrar um apartamento, preparar a mudança toda num país onde ainda não conheço todas as regras. Não sabia o que me esperava...
Até aí tudo ok porque a mudança foi um plano meu, as viagens foram todas planejadas. Aproveitar os últimos meses, semanas, dias em Berna, me despedir dos amigos, até o dia a dia no trem e me acostumar com a nova rotina. Tudo sob controle. Mas quando fui pega de surpresa pela maior mudança que estaria para acontecer na minha vida dias antes da mudança de fato pra Zurique.... ali sim eu vi que eu não estou no controle é de nada, sabe.
2012 o ano que eu completo 30 anos. O plano era bacana, começar os 30 na Cote d'azur, depois mudança pra Zurique, continuação da minha independência, todo vapor no trabalho. É, de fato, eu completei 30 anos no paraíso do sul da França, me mudei pra Zurique, continuei a todo vapor no trabalho, e de quebra... ainda fiquei grávida. Eu grávida, Eric na minha vida de vez, um turbilhão de emoções a caminho. Viagens a Rússia e Polônia postas on hold dando espaço aos primeiros meses de gravidez cheios de suspense, medo e descobertas. Ainda fui presenteada com a visita da irmã já planejada há muito tempo, mais uma visita maravilhosa a Paris, Bruxelas, e passeios pela Suiça nas lindas paisagens que se sobressaem no verão europeu.
O segundo semestre foi praticamente me acostumando com meu novo ritmo de vida, meu novo corpo, meus novos hábitos, enfim, minha nova vida a dois ou a três, mergulhando num novo mundo que até então era muito estranho pra mim.

Mas a gravidez (pelo menos até agora) não foi assim tão assustadora como parece. Depois que a ficha cai, que passamos da fase da aceitação e enjoos chatos do início pro 2o trimestre de alegrias e disposição quando eu realmente me senti grávida, senti o bebe mexer e começamos a cair mais na real, é uma coisa tão bonita e especial que voce ri do estress do começo, passa a acompanhar ansiosamente pelas novidades de cada semana, conta os dias pra próxima ultrasom. Coisas inesperadas continuam a acontecer como minha crise nos rins, mas já me sinto muito mais forte pra atravessar coisas muito maiores. É tudo tão real e único e belo e mágico que.... sei lá, eu to muito feliz de ter sido "sorteada" presenteada assim.
Mesmo com planos não executados, com novas surpresas, com replanejamentos, com virada de ponta a cabeça, 2012 foi um ano muito bom. O ano encerrou com minha barriga crescendo muito, visita da minha mãe pra matar a saudade, enxoval do bebe tomando conta do meu quarto, um Natal bem suiço e um olhar para 2013 de muita alegria com a expectativa da chegada do menininho.

Feliz 2013 a todos que passam por aqui!