13 novembro 2011

Colombo

Colombo é a capital do Sri Lanka, o centro político, econômico e administrativo do país. A cidade não lembra muito aquela imagem paradisíaca das praias do litoral, mas é o ponto de entrada e saída do país e como capital obviamente tem coisa interessante pra ver.
O Sri Lanka é uma ilha abaixo da Índia, e Colombo serviu de porto marítimo para o comércio  entre a Ásia e o Ocidente. Durante o século 8, mercadores Árabes dominavam a região, mas isso mudou em 1505 quando os Portugueses deram as caras. No século 17 entretanto, os holandeses apareceram. Mas não foi até os britânicos chegarem, que Colombo ganhou status reconhecido de cidade. Em 1815, Colombo foi proclamada capital do Ceilão, como era chamado o Sri Lanka antigamente. O país tornou-se independente em 1948 apenas, mas os Tigres Tâmis, que falei no post passado, causaram sérias consequências ao país, dispersando pessoas, famílias e forçando migrações desorientadas.
Eu até perguntei de vez em quando a um ou outro que me abordava se falava algum Português, mas eles só sorriam. É difícil enxergar influências holandesas, britâncias, muito menos portuguesas ali.. o Sri Lanka parece que tem sua própria identidade e não sofreu influências de ninguém. Colombo é organizada em 15 áreas que são usadas pras pessoas se localizarem em distritos específicos. Pettah, onde fica o forte por exemplo é Colombo 11. A cidade é grandinha, tem pouco mais de 2 milhões de pessoas, e depois da experiência que tive com o hotel que fiquei, digo que a melhor área pra se hospedar é a área da praia. É onde ficam os melhores hoteis. Não é muito central, mas Colombo não é como típicas cidades turísticas europeias que tem um centro que é onde fica mais ou menos tudo. Não dá pra saír batendo perna com um mapa na mão. Então o jeito era andar de carro mesmo. E ir explorando o que dava. Como falei no post passado, grande parte do Sri Lanka é budista, então a quantidade de templos que existe por lá é de se assustar. Mas ainda existem templos hindus tambem.

No dia que fiquei andando de carro lá com o motorista pra cima e pra baixo, vi uma enorme quantidade de templos, budistas e hindus, e eles terminam sendo uma grande atração turística. Assim nas ruas mesmo, no meio do trânsito, das lojas, do comércio, voce olha assim e tem um templo. Normalmente os templos têm bastante movimento. As pessoas realmente tiram horas do dia pra se dedicar a religião, ver e participar de rituais, uma coisa impressionante. De todos os que visitei esse aí, o templo hindu Kathiresan Kovil, foi o que mais me chamou a atenção. Ele era assim ao final de uma rua com um monte de carro passando na maior barulheira, mas lá dentro, maior calma, monges se preparando pro ritual, pessoas visitando assim no meio do dia mesmo.
Infelizmente no interior desse templo não era permitido tirar foto, e eu nem tenho provas pra ilustrar porque foi o que mais me chamou a atenção. Infelizmente mesmo porque estava tendo um ritual no momento, então eram imagens sendo descortinadas, muito incenso, músicas e falas repetidas que eu não entendia, e todo mundo prestando reverência. Muito intenso de se ver ao vivo.
Mesmo sem entender muito a significância e tudo que isso aí representa na cultura deles, dá pra perceber que é uma coisa grandiosa, difícil de esquecer.
Colombo é uma cidade que dá pra se explorar em um dia ou dois. Se voce não tiver interesse em visitar templo, pode cortar a metade do tempo. Porque não tem muito o que visitar. O Museu Nacional é outra atração interessante. Vale a pena gastar um dinheirinho a mais pela visita e pela permissão de tirar foto do lado de dentro. É também conhecido como Museu Nacional do Sri Lanka e é o maior do país.
Fica nas proximidades da área universitária da cidade e contém coleções de importantes objetos na história do país, como coroas dos monarcas, manuscritos de navegadores, etc. além de contar a própria história do país.
O museu em si não é tãão grande quanto parece. O parque onde ele fica sim é enorme, mas ele mesmo não é tão grande. Mesmo assim, passei mais de uma hora andando por lá olhando e lendo cada detalhe, pois eu não sabia muito sobre o Sri Lanka e o guia da Lonely Planet podia ser melhor, então era uma boa oportunidade pra aprender. E também foi aí onde eu relaxei mais um pouco. Já estava estressada com tudo que tinha dado errado até então, e aí pelo menos fiquei um pouco só na minha e consegui curtir a visita ao museu, sem ninguém no meu pé, sem buzinas e sem ninguém tirando foto na minha cara.
O Sri Lanka hoje é um país bom de se visitar a passeio. Claro, com os devidos cuidados. Mas não é como antes no meio de uma guerra civil, então apesar do estress resultante da minha falta de planejamento suficiente, eu ainda consegui aproveitar. O passeio se resumiu a visitar os pontos mais interessantes da cidade, áreas, templos, shopping, e ao final do dia, pedi pra ver a praia, que ahh... tirando Israel, já fazia algum tempo que eu não via uma praia.
O calor tava grande e lá não é como no Brasil que as pessoas ficam de biquini tomando sol, então praia é só pra ir dar uma volta mesmo, e apreciar a vista. No mais, Colombo é uma cidade em desenvolvimento, organizada, ainda com problemas no trânsito, mas nem se compara a India.
Imagino que a cidade tenha muito mais a oferecer, mas eu na minha situação consegui aproveitar foi isso aí. E hoje passado o streess, digo que foi de bom tamanho.

11 novembro 2011

Sri Lanka

Demorou pra esse post sair hein. Já vai fazer 1 mês que voltei da India (e do Sri Lanka) e nada de Sri Lanka no blog. Depois do stress que passei no aeroporto no infeliz episódio em Chennai na volta de Colombo que minha mala foi arrombada, eu fui roubada, o hotel em Colombo era péssimo e o guia era uma figura, demorou pra eu conseguir olhar novamente pras fotos do Sri Lanka e ter boas lembranças.
Eu resolvi ir pro Sri Lanka quando a viagem da India a trabalho foi confirmada. Eu ia passar 18 dias em Bangalore, no sul da India, e quando olhei no mapa o Sri Lanka tão pertinho, pensei por que não?!
Bem, primeiro que eu não sabia nada sobre o Sri Lanka, muito menos que a capital era Colombo. A gente que vem da América fica tão isolado e termina deixando de lado o tantão de coisa que a Asia tem pra oferecer. Bom, eu não imaginei que iria a Asia tão logo... Mas enfim, quando a oportunidade surgiu de verdade, primeira coisa que eu fiz foi pesquisar vôos na internet de Bangalore para Colombo pra ver se fazia sentido as ideias que eu tava tendo e adivinhe? 1 hora de vôo, preços super em conta, e ainda um feriado pra me tentar. Resolvi ir, comprei as passagens e fui correr atrás das informações. Tirei visto, comprei o guia da Lonely Planet e aguardei ansiosamente a data da ida. Junto com a viagem da India, eu estava com uma expectativa muito grande de pisar naquelas bandas pela primeira vez, ainda mais sozinha a trabalho. Mas eu só tinha pra mim que eu tinha que aproveitar a oportunidade.
Infelizmente eu passei por vários estresses que mancharam um pouco o brilho da viagem, mas ainda assim deu pra fazer um bom proveito, hoje eu posso dizer de cabeça fria. Indo lá, aprendi bastante sobre o país, conheci e vi bastanta coisa, e eu já disse aqui no blog uma vez que mesmo quando a viagem é ruim ela é boa. Sempre temos uma história pra contar, uma coisa boa pra lembrar, e tipo, o Sri Lanka não é logo ali que eu poderia ir de novo qualquer dia.

Eu nem sabia que até poucos anos atrás o Sri Lanka era um país perigoso de se visitar, passava por uma guerra civil e desentendimento entre os próprios povos. O conflito entre a milícia do país e os Tigres de Liberação do Tamil Eelam só acabou em 2009. Os Tigres de Liberação do Tamil Eelam ou LTTE ou simplesmente Tigres Tâmis são uma organização política violenta que pretendia determinar o povo tâmil independente. Faziam sequestros, ataques as autoridades, e agora que já não existe mais, o país ficou mais accessível.
A imagem que eu tinha era sempre relacionada a budismo ou praias. A costa do Sri Lanka tem praias e paisagens paradisíacas, grande centro de destino dos europeus que procuram algo tropical do lado de lá. O Sri Lanka também já foi alvo de desastres naturais como tsunami e é preciso planejar uma viagem pra lá com muito cuidado, apesar de não poder prever muito ne quando um tsunami vai dar as caras. Eu só consegui ir a Colombo, a capital do país, e já foi de bom tamanho. Nunca visitei tantos templos budistas e não sabia o quanto eu não sabia sobre essa religião.
A cultura do Sri Lanka se mistura com a religião. Os rituais e as fortes tradições do budismo fazem parte do estilo de vida do povo de lá. Apesar de ter tido influência holandesa, britânica e portuguesa (olha a capital aí "Colombo"!), o Sri Lanka se manteve fiel às suas origens. Mais de 70% da população é budista. É um impacto significante na cultura e nos costumes do país, espiritual, cultural e politicamente falando. A literatura, arte e arquitetura do Sri Lanka também é fortemente influenciado pela religião. Os tâmeis são em sua maioria hindus, mas não passam de 15%, o que é pouquíssimo, comparado com a India, por exemplo. Há também muçulmanos e cristãos mas não são muitos. A maioria cingalesa é mesmo budista.
Eu que nunca tinha tido contato nenhum com a religião nem nada do tipo fiquei lá de boca aberta tentando assimilar tudo que via. Comprei até um livro do Dalai Lama pra tentar me acalmar dos stress na minha volta a India. O budismo não é nem uma religião, dizem eles, mas uma filosofia de vida. Tudo gira em torno do código moral estabelecido por Buda. Buda vem da fronteira do Nepal com a India desde 500 e pouco antes de Cristo, e desenvolveu filosofias e disciplinas para entender e superar os desafios da vida. Buda ensinou que sofrer é inevitável, e todo o mundo vai viver a experiência do sofrimento enquanto estiver conectado com os aspectos materiais e sensuais da vida. Liberdade do sofrimento vem do desenvolvimento de uma auto-consciência, uma alta consciência trabalhada com muita meditação, força de vontade e crença no código moral que Buda criou. Após muitas mortes e ressussitações e muitos estados espirituais, o individuo alcança o nirvana e essa liberdade do nascimento à morte.
Tudo muito doutrinado e intenso, eu achei. Os templos que visitei sempre uma sensação muito forte e significativa. Aqueles monges budistas só com um pedaço de pano no corpo fazendo jejum e silêncio, sabe-se Deus o que eles renunciaram para viver desse jeito. Só muita crença mesmo. Eu admiro e respeito, mas preciso estudar muito pra entender o que faz a pessoa seguir essa crença assim, se não for através de tradições seculares de família, quero dizer. Sei lá, o mundo já mudou tanto desde que esses códigos morais foram criados que não consigo imaginar como deve ser viver sob ele hoje em dia, com regras de séculos e séculos atrás, num mundo totalmente conturbado e maluco. Mas tá aí, eu vi com meus próprios olhos e até pedi pra tirar uma foto pra registrar -- eles existem, os monges budistas!
Não nos deixam nem virar de costas para Buda no templo. Não se pode tirar foto com Buda, não pode usar telefone no templo, não pode entrar calçado nem mostrando os ombros e pernas. Respeite o Buda. O Budismo no Sri Lanka é assunto sério.
O Sri Lanka ok é muito menor, mas é muito mais desenvolvido que a India. Ainda têem esses carros de três rodas, mas as condições das ruas ainda são drasticamente melhores que na India e tem menos gente também, as coisas são mais organizadas. Mas ainda assim é preciso tomar muito cuidado ao andar por lá, pois ocidentais ainda são celebridades e ainda fazem qualquer coisa por um trocado, então heads up.
Tirando o stress com o motorista, porque o trânsito não é nem tão ruim assim, o passeio de carro foi tranquilo. Com o pouco tempo que eu tinha in between work e aproveitando um feriado que tinha na India, essa escapada pro Sri  Lanka foi até bem aproveitada. Poderia ter sido mais bem planejada, é verdade. Mas oh well. Vivendo a aprendendo. Próximo post conto mais dos meus dias em Colombo.

08 novembro 2011

Panela cheia, e sem batuque

Eu queria dar um outro título a esse post. Pensei em "Por que os suiços se matam", mas achei meio rude. Preferi fazer uma analogia ao "batucar na panela vazia" (e fazer carnaval) que é menos chocante. Mas o tema ainda é chocante. Antes de tudo, ainda não sei qual será o resultado final desse post, então se voce não curte o assunto que é pesado, voce tem livre arbitrio para escolher outro lugar pra ir que não esse blog.

Eu to na Suiça há 2 anos e meio e ainda não parei de aprender coisas nas experiências vividas por aqui. Fiquei muito impressionada com o suicídio do colega de trabalho no meu antigo emprego há 2 anos atrás, e desde aí, me liguei nessa coisa que não é nenhum tabu por aqui. Até novembro de 2009, eu nunca tinha conhecido ninguém que tinha se matado, nem nunca ouvido falar de ninguém conhecido, nunca. Aqui, desde que isso aconteceu, o assunto foi abordado várias vezes em diversas ocasiões e eu me impressionei ainda mais em como todo mundo aqui já passou por uma experiência assim. Que conhecia alguém que se matou, ou que quase se matou, ou que tem uma opinião formada e explicações quase científicas pra justificar tudo. Típico suiço.

Com suiço voce vai conseguir conversar quase sobre tudo. São sempre muito inteligentes, centrados, mas muito frios. Arrancar uma expressão, um ápice de emoção como um olho arregalado ou alguma tristeza nos olhos é quase missão impossível. Aqui eu conheci tanta gente tão diferente, que no inicio eu achava estranho, e hoje acho normal. São diferentes do que eu era acostumada a lidar. Voce pode ate estar lá conversando esse tema com um suiço, ele ta la contando a voce a opinião dele e tudo o mais, mas daqui a pouco o assunto vai acabar e ele vai lhe tratar como se voce fosse um desconhecido na parada de ônibus. No Brasil, todo mundo se fala, se toca, conversa, ri, convida pra fazer coisas. Aqui, são muito educados, sorriem, mas é uma coisa tão linear que as vezes parece que estão em alguma espécie de estado de transe.

Com o passar do tempo morando aqui, se voce só tiver contato com suiços, provavelmente voce vai sentir falta de alguma coisa, e provavelmente também não vai saber o que é. Falta de ir mais fundo em alguma coisa. Falta de conversar bobagem, ou conversar sério. Falta de estar sempre a vontade, porque com eles constantemente é tenso e vc nao sabe se tá agindo certo, se tá agradando, se deve ficar quieto ou soltar uma piada pra quebrar o gelo. É completamente normal almoçar 6 pessoas numa mesa e elas só se falarem pra perguntar se a comida tá boa. Com o tempo, voce vai entendendo do que sente falta, mas isso voce, se voce como eu cresceu num país tropical abençoado por Deus, onde as pessoas são calorosas. As pessoas que são daqui a medida que vão crescendo vão se tornando independentes. O país provê possibilidade de voce desde cedo com um empreguinho qualquer se sustentar, e aí as pessoas se mudam, moram só, e aí começa a crescer mais ainda o problema.

Quando voce é criança aqui, voce é uma criança como outra qualquer que quer brincar, mas quando voce vai crescendo e assimilando o tratamento dos seus pais e dos adultos ao seu redor, eventualmente voce também vai se tornar a não mais calorosa das pessoas. É da cultura daqui ser assim. Quando voce sai de casa e começa a viver sua própria vida - porque aqui todo mundo sai de casa cedo - aquela falta de um relacionamento - não de marido e mulher, qualquer relação - uma coisa mais profunda, uma amizade uma coisa assim, vai eventualmente chegar em voce, mesmo sem voce saber. Porque ninguém consegue viver o tempo inteiro assim. Vêem mil pessoas na rua e não se falam. São tão educados, mas só têm uns dois amigos de verdade. Começam a enxergar mais além da sua própria vida, identificam-se com uma coisa ou outra. E botam a culpa da sociedade, do sistema.

Porque aqui se voce entra num relacionamento - agora sim de namorados, por exemplo - o primeiro ponto a ser questionado é sua profissão, seu status, sua bagagem. Pessoas boas têm bons empregos, pessoas ruins têm empregos ruins. Foi mal aí a delicadeza, mas a realidade aqui é mais ou menos essa. Por mais que sejam educados com todo mundo, no fundo, julgam, tomam atitudes racistas, fazem o outro sofrer e acham que estão ajudando alguma coisa, quando no fundo estão fortificando ainda mais essa bolha fechada, inconsciente e errada que é esse isolamento.

Almejar uma boa carreira, um bom status, uma boa condição social na vida não é fazer mal a ninguém. O mal é usar isso pra determinar quem é bom e quem é ruim e sem perceber, ser uma pobre vítima e morrer só.

Na India, as pessoas lá vivem na merda, a grande maioria numa pobreza extrema, e pergunte se eles são sozinhos e tristes? São as pessoas mais felizes que eu já vi. Falam com facilidade, não engasgam, não são nem tão educados assim militariamente como os suiços, mas quem se importa se voce vai começar a comer sem desejar bom apetite, não é verdade? Pouco importa. Eles estão lá cheio de dificuldades pra pagar o aluguel da casa, mas a casa tá cheia de gente, eles terminam sendo obrigados a lidar com outras pessoas, e isso termina forçando a trabalhar suas habilidades sociais, e aí gera-se a convivência natural.

No Brasil é parecido. Sim, tem muita malandragem, corrupção no poder, fila de banco, serviço que não funciona, mas sempre tem alguém por perto disponível pra voce conversar. Numa fila de banco, é normal voce contar sua vida inteira pra um estranho, trocar telefone, sair pra tomar uma cerveja. Aqui? Vixe. Sei nem o que dizer. Bem, não tem fila de banco pra começar ne.

Então os suiços na sua perfeição do ambiente que vivem, nunca são abordados pelos problemas, pelas dificuldades de conseguir alguma coisa, de passar por um problema sério de dinheiro porque por mais lascado que voce seja, o governo sempre vai arrumar um jeito de te ajudar. E voce mesmo lascado aqui na Suiça, voce vive confortavelmente. Então, aonde terminam indo parar os problemas? Na questão dos relacionamentos, na socialização com outras pessoas além da educação formal e do coleguismo forçado, e aí meu amigo, é problema pra Freud.

A panela deles tá sempre cheia, o fondue tem um cheiro ótimo, mas cade a batucada? Cade a alegria, cade aquele humor espontâneo? No Brasil é todo mundo ferrado, não tem nem dinheiro pra pagar as contas direito, mas aquela saidinha no sábado a noite tá garantida. Na India é a mesma coisa. Já viu um país pra ter tantas tradições, tantos festivais e tantas comemorações?

Aí vá olhar pro índice de suicídio no mundo. A Suiça é linda, as pessoas são contentes de serem suiças, mas o país está em oitavo no ranking liderado pela Coreia do Sul, onde as crianças se viciam em estudar. Brasil e India não aparecem entre os 34 primeiros. Minha gente, OITAVO! É muito. E se voce olhar os outros países na lista - Finlândia, Japão, Estônia - todos altamente desenvolvidos, e o povo não é feliz.

Eu em 2 anos e meio morando na Suiça tenho quantos amigos suiços? ... O povo não se abre, não conversa, não dá continuidade, prefere seguir regras e mais regras porque só conhece isso. E se for preciso na sua opinião, criticar quem não se adequa a elas. No Brasil voce conhece alguém, já troca telefone, marca de sair, toma uma cerveja juntos e vira melhores amigos da noite pro dia. Pode até nem manter tanto contato assim depois com a pessoa, mas aqui isso nunca ia acontecer. Aqui pra voce marcar alguma coisa com um suiço primeiro tem que ser com semanas de antecedência, e voce não pode se atrasar, claro. E voce não vai marcar de tomar uma cerveja e contar sua vida inteira, voce marca um café e fala dos seus projetos, do filme que assistiu, da diferença entre fondue e raclette. Francamente. É preciso MUITA sanidade pra não pirar nesse lugar com essas regras e essas condutas porque olha, eu já não fico tããão impressionada com a história do suicidio.

Mas também... eu tinha uma teoria antes que era assim -- aqui as pessoas são assim por causa do frio. Tanto tempo de inverno, frio e escuridão faz a pessoa ficar mais em casa, mais só e isolada. No Brasil (ou na India) país tropical, maior calor, todo mundo sai, vai pra praia e não tem como ficar chateado com o mar ne. E ai fica todo mundo feliz, mesmo de panela vazia.

Só posso imaginar como deve ser difícil pra alguém que nasça aqui crescer assim e ser são. Já vi dezenas de pessoas na rua falando sozinhas, com tiques nervoso, e hoje já nem me admiro mais. Totalmente compreensível. Eu se tivesse crescido aqui ave maria não sei não. Quando se vem pra cá adulta já e entendida das coisas leva-se um tempo pra entender também. No começo tem aquele choque, depois a longa fase de entendimento vai seguir até voce se dar conta de como as coisas funcionam no primeiro mundo. Depois de entender, ou voce se adapta, ou voce se adapta parcialmente e aguenta as consequencias. Se voce não se adaptar, voce não sobrevive. De qualquer forma, vai sofrer impacto e vai precisar de algum amortecimento pras quedas, uma válvula de escape também ajuda bastante. Ou várias delas, depende do choque.

Desde que troquei de emprego e não trabalho mais num ambiente multicultural, mas sim num ambiente dominado por suiços e alemães, estou lidando mais com eles e entendendo cada dia um pouco mais dessa cabecinha complicada. Claro, todo santo dia, horas e horas de convivência, eu tinha que tirar alguma lição. Num ambiente multicultural, existe espaço pras diferenças e existe mais tolerância também pra essas diferenças. Agora não tem mais essa boquinha não. É adapte-se ou morra. Hoje vi um cara saindo de ambulância no trabalho, e isso me motivou a escrever.

Seja como for, eu tenho pra mim que tudo é uma fase e nada é tão ruim que não possa piorar. Não sou uma pessoa pessimista, só preciso dar umas chacoalhadas de vez em quando pra não pirar também.

06 novembro 2011

Digno de mestre

O primeiro post deste blog foi em Abril de 2009 sobre o LATW, o Latin American Test Workshop, em Buzios, no Rio de Janeiro. Minha primeiríssima conferência apresentando um paper de minha autoria, obviamente. O paper foi um resultado muito suado de uma parte da pesquisa do meu mestrado em Engenharia da Computação lá na UPE, em Recife. Mal sabia eu do que estava por vir e do que estaria para ser registrado nos meses e anos seguintes neste mesmíssimo blog aqui.

Depois dali, ainda apresentei outro paper na SQS, na Alemanha, outra conferência de grande porte que depois mudou o nome para Iqnite. E depois dali, eu arrumei meu emprego aqui na Suiça e corri pra terminar minha dissertação pra dar início a esse emocionante capítulo da minha vida em terras alpinas.

Minha defesa de mestrado foi um marco na minha vida. Ali foi a realização oficial, a personalização da transformação que eu passei pra me tornar mestre, a prova do resultado de dois anos de muito estudo, muita pesquisa. O título de mestre não se chama assim a toa. O mestrado me ensinou a estudar melhor, ali eu aprendi a redigir, a ler, a captar o que é importante nos papéis do meio acadêmico, além de tantas e tantas nerdices da engenharia da computação, ali eu cresci tanto que talvez eu nem saiba o quanto.

Inúmeras vezes durante os dois anos de pesquisa eu me arrependi de ter escolhido fazer isso, ainda mais bolsista ganhando mil e poucos reais por mês do governo que não dava pra nada. Mas como disse uma vez Lenin, eu estava dando um passo atrás para dar dois na frente depois. Fui ainda chamada para continuar no meio acadêmico e seguir com o doutorado, mas eu estava meio traumatizada com tanta carga e não passava pela minha cabeça conseguir continuar vivendo daquele jeito estudando tanto.

Eu gosto de estudar, mas ali é pra quem gosta MUITO! Deixei as oportunidades de doutorado de lado, peguei meu segundo diploma pro meu curriculo e vim mimbora pra Suiça, de volta ao mundo das empresas privadas trabalhar. Esqueci do meio acadêmico.

Meu orientador de vez em quando ainda me escrevia perguntando quando eu ia escrever novamente para um journal, ou mais um paper e tal, e eu tão overwhelmed com tanta coisa nova aqui na Suiça simplesmente fui empurrando com a barriga, não tinha o menor lust de escrever papers novamente.

Até que um dia recebo um email de um senhor da VDM Verlag, uma editora alemã, me dizendo que tinha cruzado com minha dissertação e que tinha uma proposta a me fazer: transforma-la em livro..... Uau!!! como assim!! Eu escrevi a dissertação em Inglês pra facilitar minha vida com os papers e tal, achava que ela ia ficar engavetada depois que eu recebesse meu título de mestre. Transforma-la num livro?

Eu já pensei em escrever um livro, mas mais agora porque eu escrevo um blog. Que na verdade talvez eu tenha um blog por causa dessa bendita dissertação que me ensinou a escrever e agora não paro mais! Mas se um dia pensei em escrever um livro não seria sobre tecnologia. Seria sobre viagens, idiomas, Suiça, sei lá.. Seja como for, a dissertação tava pronta, a proposta tava feita  e eu me interessei por ela. Minha dissertação é uma coisa técnica, tem resultados de experimentos que fiz com duas aplicações em Java, comparei abordagens de testes, usei um benchmarking que foi a dissertação de outro colega também mestre orientado pelo meu mesmo orientador e trabalhamos em conjunto. Enfim, quem se interessaria por um livro assim? Só quem está no meio acadêmico e precise mesmo do material pra estudar ou pra ajudar no seu próprio trabalho, porque convenhamos, não é divertido ficar lendo coisas técnicas de computação se voce realmente não precisa.

Bla bla bla bla bla, alguns meses de negociações, email vai, email vem, assinei contratos, passei os direitos de todo o conteúdo do meu trabalho para a editora e ganho apenas uma pequeneníiissima porcentagem nas vendas. Tcharãããnnnn.......
My baby!
A subestimei quando achei que iria ficar engavetada depois que tivesse meu título de mestre na mão.
O lugar dela é aqui ó, no Amazon:
Recebi a primeira cópia do meu livro em casa, me senti A MESTRE! E tipo, eu sou ne, hahahahaha!!!
Achei o preço meio salgadinho, 95 dolares, mas livros no meio acadêmico não são baratos mesmo neam. Eu não tive nada a ver com a determinação desse valor, mas se eles lá da editora acham que meu suor trabalho vale isso aí, quem sou eu pra discordar. De qualquer forma, só ganho uma porcentagem muito pequena do que for vendido, então nem me animo. A vitória aqui não é o dinheiro, mas sim o que isso representa.

Quem tiver aí estudando testes de software e essa coisa toda, a dica tá dada. O livro está disponível aqui no Amazon. Eu até posso fazer uma dedicatória se voce quiser... hahahahaha!

05 novembro 2011

Feierabend in the office

Tá bom, eu vou fazer uma pausa nos posts da India. Mas já tá acabando hein. 2 semanas na India não é pra menos.

Eu já estou de volta a Suiça há 3 semanas e a vida continua. Por aqui cada dia mais frio, mais folha caindo e muito trabalho. Muito trabalho meeeesmo. Tenho trabalhado feito uma louca nesses últimos dias por alguns motivos especiais. Primeiro, um projeto está acabando, outro está começando, e depois porque eu estou saindo de férias em menos de 2 semanas. Merecidas férias! Tenho que deixar meus projetos na mão de duas pessoas. Uma na India e o outro aqui. Só que o daqui é um novato que começou essa semana! Então imagina. Coitado, tenho pena dele que deve ter ficado com dor de ouvido de tanto que eu falei ontem.

O trabalho tá de tirar o couro ultimamente. Nem tanto de trabalhar até tarde porque voce sabe aqui na Suiça não tem disso, mas de trabalho hardcore mesmo, que exige cabeça funcionando o tempo inteiro, decisões, então não tem sido fácil. E ainda to empurrando pra lá os projetos em Hong Kong e Cingapura porque agora não tenho condições de pensar nisso.

Já falei algumas vezes aqui no blog o bom ambiente que tem meu novo emprego e do happy hour constante depois do expediente, apesar do trabalho duro. ou justamente por ele. Happy hours esses que ajudam a suavizar a casca grossa no trampo e dar uma relaxada. Com o frio chegando, não dá mais pra ir pra um bar e ficar sentado ao ar livre tomando uma cerveja. Então, a "farra" é no próprio escritório mesmo.
Farra no bom sentido. No sentido de happy hour mesmo. Não no sentido de encher a cara, mas de have a nice time e não pirar com tanta coisa. A gente passa tanto tempo no trabalho, acho muito lógico que um bom ambiente seja essencial. Tentar se dar bem com os colegas e não ser aquela coisa pesada, esquisita e sem jeito de lidar. Ir pro trabalho só trabalhar feito um robô não é pra mim. Se é pra dar duro eu dou, mas tem que ser easy going, senão não rola. Foi um dos motivos que me fez trocar de emprego, nossa, como eu penei no outro emprego. Quem acompanha este blog pelo menos desde o início do ano sabe. Lá na empresa agora, a gente trabalha tão duro a semana inteira, nada mais justo que um bom happy hour pra compensar todo o hard work. Ainda mais pra mim que ainda tenho que ficar funcionando em Alemão.
Nem todo mundo da empresa é da área de TI, então tem gente que passa a semana trabalhando em Londres, na Alemanha, tem um até em Hong Kong já, e no final da semana volta pra Zurique. Maior pressão e responsabilidade liderar projetos com pessoas espalhadas pelo mundo, conversar com clientes dos mais variados setores, administrar tudo, olha, eu tiro o chapeu pros meus colegas de trampo.

Na sexta-feira, tá todo mundo implorando pelo fim de semana só pra parar um pouco e diminuir o ritmo frenético, e mesmo a própria sexta ainda sendo um dia puxado de trabalho, a "farra" no escritório é de lei, pelo simples fato de estar todo mundo no escritório e não viajando, no site do cliente, etc. Às vezes temos café da manha juntos pra começar bem o dia, ou - o que é mais comum - um feierabend.

Feierabend em alemão é o beer o'clock inglês, são as horas finais do expediente, quando você encerra seus afazeres e vai se desligando do trabalho com a ajuda de um proseco, um champagne...
....ou um doce. Às vezes alguém traz algum quitute e aí tá tudo certo. Porque o champagne e o proseco faz parte do orçamento.
O setor de Recursos Humanos na empresa tem um sério programa de recrutamento e esta semana fomos presenteados com doces Sprüngli e resolvemos fazer fotos com os cartazes de hot jobs. É uma pena eu não poder estar presente toda sexta-feira que é principalmente quando se tem essas coisas, porque às sextas constantemente ainda tenho que estar no site do cliente. O site do cliente tanto em Zurique quanto em Berna também é muito bom de se trabalhar, e passo a semana lá e cá com muito gosto. Mas quando estou no escritório da empresa mesmo é garantia que todo o esforço é recompensado.

E me diz se não é isso que todo mundo almeja numa carreira profissional? Trabalhar duro, reconhecimento, um bom ambiente de trabalho, colegas legais. Já que tem que trabalhar ne, então que seja uma coisa boa. Eu não trabalho de favor. Nem eu nem ninguém. Estudamos, nos dedicamos, mereçemos algo em troca. To saindo de férias em breve na maior alegria, mas to com a leve sensação que vou sentir falta do trabalho.

E depois do feierabend no escritório, algumas pessoas ainda emendam a saída a um pub, alguma outra coisa, porque agora já temos menos luz de sol por dia e 6 horas da tarde já tá escurão mesmo. Então é sair do escritório, dar de cara com um belo outono noturno relaxado e agradecer por mais um dia de trabalho.

03 novembro 2011

Srirangapatna

Eu espero vai, tenta aí de novo falar esse nome: Srirangapatna.

Bom, Srinrangapatna foi uma parada estratégica no sábado quando estávamos a caminho de Mysore. Como a viagem de Bangalore a Mysore são alguns cento e poucos quilometros mas a viagem demora hooooras, o guia sugeriu pararmos em Srirangapatna, que na verdade já é bem perto de Mysore.
Essa cidade com nome fácil de pronunciar é o que restou da capital do sultanato de Tipu, do século 18. Tipu foi o governante muçulmano de Mysore no século 18 e ficou conhecido por suas audaciosas campanhas militares. Ficou por isso conhecido como o tigre de Mysore. Hoje a cidade é uma cidade de interior na India e não atrai tantos turistas quanto deveria.

O palácio de verão da família real hoje é um museu aberto a visitas, no meio de um jardim enorme e lindo, o parque Daria Daulat.
De novo não era possível tirar foto dentro do palácio que visitamos, mas o interior é todo decorado em extremos detalhes, pilares desenhados encenando as lutas e vitórias em batalhas contra os britânicos, murais com pinturas até o teto, tudo muito interessante de ver.

Talvez fosse porque a gente tinha passado muito tempo já dentro do carro e estávamos cansados e claustrofóbicos, mas ficamos um tempãão lá nesse parque em pé ouvindo as explicações do guia debaixo de um sol escaldante, mas sem reclamar. Tava tudo tão agradável, o passeio tinha acabado de começar e tava todo mundo de bom humor e disposto. De lá, ainda em Srirangapatna, fomos conhecer um templo hindu antigo e bem conhecido na cidade, o Sri Ranganathaswamy. Outro nome bom pra ficar tentando pronunciar direito.
Apesar do rei de Srirangapatna ser muçulmano, o nome da cidade vem desse templo, que é de origem vaishnavism, uma ramificação do hinduísmo, vamos dizer. Eles adoram o deus Vishnu. E este templo é dedicado ao deus hindu Ranganatha, uma das manifestações do deus Vishnu. Olha, é difícil, viu, a pessoa tem que fazer um curso pra entender esse monte de deus hindus, diferenças dos significados, etc etc etc e tal.
O templo foi erguido no século 9 e é um dos mais importantes do sul da India.
Quando a gente chegou lá tinha acabado de acontecer uma celebração de alguma coisa, alguma adoração que eu não entendo, então tinha MUITA gente, muito indiano e tava uma loucura pra andar. Não vi nada da celebração lá, terminamos passando pouquíssimo tempo, nem entramos no templo, porque é aquela agonia: tira sapato, deixa camera, deixa celular, ser revistado. E nossa prioridade era seguir para Mysore. Então só demos uma volta ao redor do templo mesmo, tiramos umas fotos, comprei uns cartões postais e já fomos voltando.
Não sei se é porque eu não sigo a religião hindu ou simplesmente sou ignorante mesmo no assunto, que não foi nem o templo que me impressionou nessa rápida visita a Srirangapatna. O que me impressionou foi a movimentação ao redor. A quantidade de gente é sempre impressionante, mas o monte de vendedor ambulante assim no chão mesmo ou vendendo até algodão doce. Achei muito legal poder estar tão perto do povo assim andando na rua, porque a gente ficava sempre dentro do carro e só saía já na porta do lugar que iríamos visitar. E aí não, aí tivemos a chance de bater perna um pouco, então foi muito bacana esse contato mais próximo na rua.
Me lembro até do vendedor de cartão postal, um rapaz bem simpático que ficava dizendo que sabia todas as capitais do mundo e me mandava dizer um país e ele sabia a capital. E sabia mesmo! Arrisquei Brasil e Suiça e ele acertou. Comprei os cartões postais só por causa disso!
Mesmo super rápida a visita a Srirangapatna merecia um post porque foi muito especial e interessante. Aliás, o que não foi interessante nessa viagem a India ainda to pra descobrir.

01 novembro 2011

Mysore

Quando eu digo que eu adoro meu emprego novo eu não to brincando. Tenho vários chefes e todos são bem legais. Igualzinho ao antigo emprego! hahaha! O meu chefe imediato delega muita coisa pra mim e sinto que ele confia em mim, então é ótimo trabalhar assim. Na viagem a India a trabalho, depois de ter passado mais de 1 semana sola trabalhando com o time lá de Bangalore, chegaram 2 chefes daqui da Suiça e um colega que tem mais ou menos o mesmo cargo que eu - test manager. Eles foram pra passar pouquíssimo tempo, só pra ver como é que estavam as coisas lá e se o trabalho que estou fazendo com o time tá dando certo mesmo. Tirando a pressão que eu tinha que mostrar que tava fazendo um bom trabalho, tava tudo ótimo. Graças a Deus o trabalho deu tudo certo. Meu chefe organizou uma agenda toda cheia de coisas pra fazer e no último sábado que estaríamos lá ele organizou um tour a Mysore.

Mysore é a segunda maior cidade do estado de Karnataka. Bangalore é a maior, e é também a capital. Mas Mysore já foi um dia a capital do estado (até 1831) e ainda carrega muita fama e história. É uma cidade interessante pra se conhecer no sul da India. Tanto que foi a escolha do meu chefe. Eu e o resto do time aceitamos na hora e com um motorista e um guia, nós 4 em 2 carros encaramos 4 horas pra ir mais 4 horas pra voltar num dia só pra ver o que a cidade tem de bom.
Bom, de Bangalore a Mysore são só 140km, mas trust me, dá 4 horas fácil fácil. O trânsito não é brincadeira mesmo na auto estrada. Bom, mas Mysore, vamo lá! Mysore é famosa pelo festival Dasara, que aconteceu uma semana antes de a gente chegar lá! Todo ano dependendo da lua, do sol, do mar e de mais alguns fatores astrais, uma data normalmente no mês e Outubro é escolhida para este festival que dura 10 dias. O festival é uma tradição antiga, desde o século 15, de quando realmente ainda haviam marajás governando na India e eles eram vistos com esplendor. Durante o Dasara, acontecia uma procissão liderada pelo marajá, e costumava seguir sempre cercada de muita gente, excevivamente decorada com flores, incensos, com a presença de animais, onde o marajá desfilava em cima de um elefante. Tudo muito exótico.

A indiana que trabalha comigo quando soube que iríamos visitar Mysore, me mandou assistir este vídeo do festival em 1968 e olha que coisa mais interessante:

Ora, mostrar logo pra quem! Eu adorei esse vídeo, assisti antes de ir e fui a Mysore pronta pra ver o cenário deste festival. Hoje em dia, o festival ainda acontece, mas obviamente não é a mesma coisa, pois antes significava a celebração do reinado e tinha toda aquela pompa, adoração aos deuses hindus, etc. As adorações ainda continuam, (o Ayudha Pooja que falei aqui é na verdade o último dia deste festival), mas a monarquia desapareceu e o palácio onde o marajá e sua família moravam que é o centro do Dasara hoje não é mais habitado.
O Palácio de Mysore foi a residência da antiga família real, a dinastia Wodeyar, que durou até a independência da India em 1947. Ver ao vivo é um espetáculo. Posso imaginar como deve ficar mais fantástico ainda durante o Dasara, pois fica todo iluminado. O Palácio que se vê no video acima é este mesmíssimo, todo cheio de gente e palco do festival.
O Palácio hoje é um museu aberto a visitas. Infelizmente, muito infelizmente, não é permitido entrar com máquina fotográfica lá, porque olha, lá dentro é uma coisa incrível. Cada cômodo tão detalhadamente decorado, objetos antigos dos marajás, tronos, utensílios e móveis de casa, tudo exposto e valeu a pena todo o esforço e o stress de enfrentar 140km em 4 horas chacoalhando dentro do carro pra conhecer isso aí. É aquele stress pra entrar, porque tem que tirar os sapatos, deixar no guarda-volumes do lado de fora, deixar a máquina, ser revistado, passar pelo detector de metal, e ainda por cima ignorar aquele monte de indiano olhando pra gente e querendo tirar foto de 4 turistas ocidentais. Mas juro, valeu a pena demais! A visita foi incrível. Passamos horas andando pelo palácio, meus chefes, meu co-worker e eu todos muito impressionados olhando cada detalhe e imaginando como deveria ser grandioso esse festival e essas celebrações por ali uma vez por ano.
É, as imagens do interior do palácio ficam só na minha cabeça mesmo, fazer o que. Passamos a maior parte do dia aí mesmo neste palácio. O final do passeio ficou meio manchado na minha memória porque eu precisava ir ao banheiro e quando entrei no banheiro público, minha nossa, esqueci de todo o glamour que tinha acabado de ver do palácio. Mas não vamos falar sobre isso. Depois daí estávamos mortos de fome, e eles que só estavam lá há 4 dias não aguentavam mais comer comida indiana, então fomos catar uma pizza.
E pronto! Foi isso em Mysore. E isso é o mais importante mesmo de se ver por lá. Mysore é conhecida por este festival e por este palácio e é isso que atrai turistas ali. Depois daí só paramos numa lojinha pra comprar souvenirs e fomos criando coragem pra encarar os 140km de volta que magicamente transformaram-se em 5 horas. Pelo menos tinha uma televisãozinha no carro e fomos assistindo um filme indiano muito louco. Chegando em Bangalore, foi só o tempo de pararmos num resort perto do aeroporto que meu chefe também tinha organizado, só pra tomar banho, relaxar um pouco, jantar e ir pro aeroporto, porque o vôo de 9 horas de volta para Frankfurt nos aguardava.