No estado que estou hoje, talvez seja exagero dizer que é uma relação de amor e ódio. Mas sem dúvida de altos e baixos. Só que ultimamente com altos médios e baixos bem baixos. Sim, é uma pena, porque tinha tudo para ser o emprego perfeito, culturalmente equilibrado, estável. Mas nem tudo é perfeito mesmo.
Quando me foi oferecida esta vaga, eu imaginava como seria trabalhar num departamento com gente de 17 nacionalidades diferentes. Sou da área de TI (tecnologia da informação), então somos particulares do nosso jeito. Eu estou acostumada a, por exemplo, trabalhar numa sala só com homens. Desde que fiz 3o ano do 2o grau quando dividiram as salas por áreas e eu fiquei na sala de exatas, era eu, mais duas meninas e uns 30 garotos. Na faculdade foi assim, nos meus estágios foi assim, no meu primeiro emprego foi assim, no meu mestrado foi assim e é assim até hoje. Não tenho problema com isso, já me acostumei. E já me acostumei a trabalhar com essa galerinha nerd, porque querendo ou não eu faço parte dela, mesmo sendo quase uma exceção por ser mulher.
Então acreditei que meu nível de tolerância e flexibilidade fosse mais elevado, pois passava por situações que minhas amigas de outras áreas não viviam. Me achei pronta para aumentar o nível de dificuldade e vir bater aqui, trabalhando nessa área louca e cruel com gente de tudo quanto é lugar, isto é, homem de tudo quanto é lugar. E comecei a perceber as particularidades, não só que já tinha observado da área de exatas, mas isto misturado com as particularidades de diferentes nacionalidades e costumes. Mesmo sendo uma organização internacional e existir políticas de respeito de costumes e culturas e etc e tal, com o tempo, fica tudo bem claro.
A culpa de meu atual emprego não ter dado certo não foi porque é um ambiente de trabalho multicultural. Se é que existe culpa nessa história. Mas o lema de respeito e neutralidade de comportamento também termina levantando uma outra questão: a da indeferença. O lema às vezes pode ser traduzido na verdade como "cada um por si" e ninguém leva uma estrela dourada no peito por ter feito o trabalho que seu colega sei lá de onde não fez.
É difícil aplicar regras, criticar, elogiar. É difícil não rotular e agrupar as nacionalidades em adjetivos, porque você também termina sendo rotulada e o grupo que você se encaixa hoje talvez seja o seu refúgio no meio dessa babilônia. Mas quem foi que disse que era fácil? Meu orientador do mestrado já dizia que se fosse fácil não tinha graça. É, Sergio, eu ainda concordo. Mas precisava ser tão difícil?
Os alemães são sempre os mais temidos, os tidos como mais sérios e rígidos, mas isto não quer dizer que eles sejam competentes. Os italianos vão sempre ser aqueles que o sotaque é difícil de ajustar quando falam outro idioma. Os franceses sempre terão seu modo único de se comportar, olhar e falar. O suíço, por outro lado, é sempre aquele que tenta ser o mais profissional possível, mas normalmente se manifesta quando é cutucado. O povo da Romênia geralmente é tido como quieto e machista, se for homem principalmente. Colocar um romeno homem para trabalhar com uma mulher brasileira por exemplo, não é a melhor idéia do mundo. O brasileiro, em geral, é profissional e trabalhador, e não tem problema nenhum em mergulhar de cabeça no trabalho, no emprego. Acho que brasileiro pode ter fama de preguiçoso e malandro, mas em geral se tiver que pegar pra valer no batente, somos capazes de trabalhar horas extras, sob pressão e produzir resultados surpreendentes. Coisa que um sueco ou um inglês poderia se recusar ou ter mais dificuldade a fazer, por exemplo.
Por um lado, é bom estar rodeado de gente expatriada como você num ambiente de trabalho, que não importa de onde vem vai passar por dificuldades naquele país que você também vai, apesar de a maneira de lidar com isto possa diferir de você pra eles. Por outro lado, não é bom se sentir para sempre ilhado com um monte de expatriado mais ou menos na mesma situação que você, e aumentar mais ainda o caminho de se sentir em casa quando se está longe do seu país de origem, se é que isso um dia vai acontecer, uma vez que saímos do Brasil pra morar fora. Mas a integração com o povo nativo de onde você mora fica mais difícil, e você termina se sentindo longe de casa e ainda distante do próprio país onde mora.
Onde eu trabalho hoje, temos benefícios de diplomata, mas isso não é de todo bom. É ótimo não ter desconto hoje na folha de pagamento, mas não é de todo bom não pagar impostos e não contribuir para os serviços do país onde mora. Um dia você vai querer o retorno que poderia ter se estivesse pagando impostos por aqui. A sua legalidade é outro ponto. Imigrar não é fácil. Imigrar direitinho com papéis acertados é menos ainda. Mas imigrar direitinho como a lei do país manda também dá direitos aos imigrantes, que com o tempo, vai ser possível usufruir. A integração é necessária para quem imigra. Do contrário, você se sente um eterno estranho no ninho. Você não vai mudar de nacionalidade, mas o impacto pode ser menor.
O contato com gente da mesma nacionalidade que a sua é, digamos, uma tentação. É bom, mas é ruim. É ruim, mas é bom. É bom porque quando você encontra gente com quem tem afinidade e pode conversar no seu idioma, melhora seu humor, você fala na sua língua do jeito que você sabe que será entendido e está acostumado, mas é ruim porque não dá pra viver longe mas numa comunidade de gente da mesma nacionalidade como se aquele cantinho fosse seu país. Em primeiro lugar, você não saiu do seu país pra isto, certo? Dessa maneira, vai levar mais tempo para aprender de vez o idioma do lugar que você está, o processo de integração é mais longo e doloroso e você termina nunca se deixando voltar totalmente, nem que seja por algum tempo do seu dia, ao novo país onde mora, à nova cultura. E o governo do novo país onde você mora não quer imigrante formando coloniazinha que não se integra. Sacou a faca de dois gumes? De novo: quem disse que era fácil?
O trabalho ocupa a maior parte do seu dia, se você como eu trabalha oito horas por dia, quarenta horas por semana. E trabalhar com gente de tudo quanto é nacionalidade afeta. Afeta a sua vida. E muito. É ruim, mas é bom. É bom, mas é ruim.
É Liana, não deve ser fácil mesmo, mas para nós imigrantes nada é assim tão fácil não é mesmo? Você já tem muita sorte de estar trabalhando na sua profissão, é só não se acomodar no mesmo emprego e correr atrás também de outras oportunidades. Beijos, sucesso para vc, paciência e tudo de bom. Feliz natal e boas festas.
ResponderExcluirLer seu texto é bom, mas é ruim... o que será que me espera no meu futuro? rs
ResponderExcluirQue vc encontre o equilíbrio entre as coisas!!!
to esperando o resto... rsrs
bjs
Olha Liana, eu nao formei grupinho de amigos brasileiros nao. E nao me integrei com holandeses. Tenho muito bom contato com umas maes holandesas simpaticas que conheci na escola dos meus filhos, mas fica so no contato social. Na decada que trabalhei para a cadeia de hoteis IHG conheci gente de varias nacionalidades, ate mais que voce. Fiz ate otimos amigos mesmo. E agora lamento muito nao ter pedido demissao do emprego quando meu primeiro filho nasceu e ir buscar um job numa empresa holandesa. Multiculturalismo e' bom pela diversidade de lojas, comidas, moda, musica. Mas para ambiente de trabalho, nao da, e pelas coisas que vc citou acima. Essa e' minha filosofia de vida - mas so minha. Cansei de varios europeus e blogueiros que ficam naquela lenga lenga de justificar por que nao falam holandes (incompetencia intelectual), que a comida tradicional holandesa e' boring, que as musicas holandesas sao sem graca, etc. Pergunta se essa galera vai embora da Holanda enfrentar o desemprego nos seus paises de origem ?
ResponderExcluirOi Liana,
ResponderExcluirSera que não é chegado o momento de colocar tudo na balança e analisar direitinho se não é hora de mudar?... Empregos interessantes vão existir sempre para pessoas inteligentes como você. Acho que o que não vale é ir trabalhar sem satisfação, ou nos deixarmos acomodar. Te desejo todo sucesso do mundo. Beijos.
Achei bem legal teu texto e entendo muito bem como é difícil esse momento! Larguei um bom emprego com contrato fixo aqui na Suíça também por não concordar com algumas atitudes do meu ex chefe, mas jamais será uma decisão fácil, ainda mais pela crise ainda existir e as vagas serem poucas no mercado.
ResponderExcluirMas como você falou bem, passamos boa parte da vida em um ambiente de trabalho e se existe um sentido pra vida, é o de ser feliz e realizado!
Boa sorte pro ano novo e muitas felicidades!
Michel
Oi Lia, apesar de nunca ter trabalho de verdade fora do pais, eu acho que consigo entender o seu nivel de frustracao com o lado bom e principalmente com o lado ruim da coisa.
ResponderExcluirMas eu espero que pelo menos vc curta o trabalho que faz, pq passar a maior parte dos dias fazendo uma coisa que nao gosta deve ser muito horrivel.
E olha nao fica com inveja, pq logo logo vc vem para ca visitar! E olha meu irmao esta indo morar em Recife no inico do ano que vem! :)
bjs
Liana, que situação complicada.
ResponderExcluirA impressão que eu tenho quando vejo você falando do seu trabalho, é de que vocês não têm um gerente, ou um líder, coordenador, seja lá o que for. Eu acredito num bom gerenciamento, e acho que nessas horas nada melhor do que alguém “de fora” pra poder apaziguar (se necessário) e tomar as rédeas da situação. Toda empresa tem regras que devem ser seguidas independentemente da origem da pessoa. É preciso adotar regras comuns pra todos, senão vira bagunça e a coisa foge do controle. Eu sou contra micro gerenciamento, mas infelizmente algumas pessoas precisam disso,senão perdem a linha.
Eu trabalho numa empresa holandesa, mas que se entitula “internacional”. Aqui 99,9% são homens, e tenho colegas do UK, da Escócia, um da Colômbia, um do Peru, uma italiana, três surinameses. Os holandeses e os britânicos vivem em pé de guerra, mas a empresa é pequena demais para suportar tantos egos inflados. Chegou a um ponto de termos uma reunião só para falar sobre esse assunto, e o diretorzão na época foi bem claro: não vou mais aturar briguinha de ego, principalmente se vier acompanhada da desculpa da “diferença cultural”. Teve uma época que a diferença cultural se tornou desculpa para tudo aqui na empresa, e principalmente para a falta de comunicação, que na minha opinião é o maior problema da maioria das empresas.
Boa Sorte na sua decisão, e tenha sempre em mente que fases ruins vêm e vão.
Beijo!
Eu vim pra Europa em dezembro de 93 pra trabalhar em uma empresa em Dublin, onde também convivia diariamente com várias nacionalidades (software localizer). Foram 7 meses mas eu curti muito, detalhe que meus melhores amigos eram um alemão com quem tenho contato até os dias de hoje (16 anos depois) e um holandês com quem namoro há 3 anos e meio (longa estória, tá lá no blog)
ResponderExcluirTambém trabalhei seis meses em Edinburgh e eu era a única brasileira, cercada de tradutores europeus e claro, muitos ingleses e escoceses. Não tive nenhum problema. Foi uma experiência ótima passar um tempo na Escócia.
Enfim, as experiências variam enormemente mas eu acho que ter a oportunidade única de trabalhar com tantas nacionalidades tem mais vantagens do que desvantagens, no final das contas. Na minha singela
opinião. Mas chefe ruim é complicado mesmo.
beijos e bom natal!!!
O contato com gente da mesma nacionalidade que a sua é, digamos, uma tentação. É bom, mas é ruim. É ruim, mas é bom. É bom porque quando você encontra gente com quem tem afinidade e pode conversar no seu idioma, melhora seu humor, você fala na sua língua do jeito que você sabe que será entendido e está acostumado, mas é ruim porque não dá pra viver longe mas numa comunidade de gente da mesma nacionalidade como se aquele cantinho fosse seu país. Em primeiro lugar, você não saiu do seu país pra isto, certo?
ResponderExcluirPois eu não não tenho a menor necessidade de andar só com brasileiros! Conheço muitos aqui em Amsterdã que só circulam em festas e shows brasileiros, comem feijão com arroz todo dia e nem falar holandês falam...por essas e outras que prefiro me chamar de cidadã do mundo.
Depois de 17 anos fora do Brasil, não escolho mais minhas amizades com base na nacionalidade. O principal é a afinidade. Ser brasileiro não é garantia de que será meu amigo. Não mesmo!
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